Não tem jeito, não posso simplesmente ignorar o Natal. Fosse o Natal num outro dia, dar-se-ia um jeito. Mas hoje é Natal.
De qualquer forma, me recuso a tratar de ceias natalinas, me recuso a falar de perus, porque coisa mais sem ginga e bronzeado não há. Daí que passei a semana procurando um propósito nobre, um assunto mensagem-de-natal que pudesse minimamente revelar o espírito natalino, independentemente do credo de cada um. E acho que encontrei, dentro da nossa proposta gastronômica, gente que faz da vida inteira um Natal.
O chef de cozinha mais badalado de Israel é proprietário do renomado restaurante The Eucalyptus e fundador da ONG: ‘Chefs for Peace’ (chefs pela paz). O senhor Moshe Basson foi fundo no conceito de irmandade entre povos em guerra, como os palestinos e israelenses. De que modo? Tentando mostrar, através da gastronomia, que são irmãos e comeram por séculos as mesmas coisas. O chef buscou na Bíblia, na Torá e no Talmud (os dois últimos, livros sagrados do judaísmo) uma dieta comum e os convida à mesa, à celebração da paz.
Claro, o objetivo do chef não foi perscrutar a dieta de Cristo, seu ‘Messias’ é outro. Até porque a sua pesquisa de pratos e receitas data do século 17 AC! Mas, através dessa pesquisa, podemos supor a mesa posta de Jesus Cristo, supor o que Cristo comeu, o que apreciou. Através do cardápio do The Eucalyptus temos uma noção.
O chef Basson utiliza em sua cozinha apenas ingredientes bíblicos. E o que parecia ser limitante acabou por desaguar em descobertas de ervas e matos comestíveis esquecidos. O chef utiliza-se dos frutos endêmicos daquela região e do seu enorme potencial culinário, como é o caso dos figos, das azeitonas, dos tamarindos...
Uma de suas famosas receitas é a de figos recheados com cebola e berinjela. Outra receita que lhe conferiu fama foi o pesto de Zaatar, que é uma erva comestível encontrada em toda aquela região, e que só foi redescoberta pelas mãos do chef. As especiarias também são fartas, a canela, mencionada no Cântico dos Cânticos de Salomão, é um dos principais temperos. O fabuloso cardamomo também tem destaque. O sal é exclusivamente retirado do Mar Morto. O chef redescobriu também um bolinho de cordeiro com quiabo e tomates, o Veal Kofta, que muito bem poderia ser feito nos dias de festas.
Temos dados bíblicos para acrescentar a isso: os peixes, que devem ter sido a principal fonte proteica da alimentação de Cristo. Sem nos esquecermos dos grãos integrais, da lentilha, dos feijões e do vinho para celebrar sempre a vida dada por Deus.
O lendário chef Basson é iraquiano, foi criado em Jerusalém, está inserido numa cidade incrível, onde fervilham fés que não se harmonizam. Mas, dos seus caldeirões, saem verdadeiras delícias que só o amor é capaz de temperar. Ele canta a glória dos homens ao dizer que é possível descobrir pontos comuns entre irmãos tão desgarrados.
Nosso conceito de paz é um tanto quanto difuso, meio transcendental, diria. Para nós, brasileiros, o conceito de paz está mais relacionado ao indivíduo, à paz interior. Mas, para povos que vivem a guerra, a paz é algo concreto. Para alguns, essa paz tem o peso de uma metralhadora, a paz possível pode se originar da guerra vencida. Mas existem pessoas que, mesmo dentro deste contexto nervoso, optam pela Paz, em maiúsculas, e se impõem com a Força do Pacifismo, pregando em silêncio a maior lição do Cristo: o amor ao próximo.
Perdoem-me por não ter uma mensagem do Cristo integrante da Santíssima Trindade, porque nada sei sobre santidades. Não alcanço, não entendo a perfeição. Preferi oferecer-lhes uma centelha do Jesus-homem, que sofreu, que teve medos e dúvidas, tão humano... Afinal, o que celebramos hoje é o nascimento de uma humilde criança. Feliz Natal a todos.
Dica da semana
Comida que se consegue fazer em casa costuma ser vista com descaso, quando é feita em restaurantes.
Pouquíssimas preparações conseguem transpor esta barreira. E o sucesso deste experimento depende do modismo vigente: purês, por exemplo, já foram um dos acompanhamentos mais repetidos; farofas são feitas com os mais diferentes ingredientes, e passeiam da entrada até a sobremesa.
Fazer com que preparações domésticas ganhem status gourmet exige muita pesquisa, domínio da origem e essência da preparação, para que esta não seja modificada.
E é possível dar uma enfeitada em algumas preparações caseiras sem grandes esforços.
Por exemplo, a clássica maionese (feita com 1 gema, 1 colher de sopa de mostarda, sal, 150 ml de azeite, 150 ml de óleo e 2 colheres de chá de vinagre) ganha nomes e aparências respeitadas com algumas mudanças:
- Aioli: Substitua a mostarda por 4 alhos amassados mais colher de chá de sal grosso.
- Andaluza: junte 2 alhos amassados e 2 colheres de pimentões picados.
- Chantilly: misture 4 colheres de sopa de creme de leite bem batido.
Caso sua maionese fique com aparência talhada, jogue uma gema no liquidificador e bata até reemulsificar.