“Dizem que vivemos em um mundo de ódio e ganância, mas eu não vejo assim. Me parece que o amor está em toda parte, às vezes sem dignidade ou desinteressante, mas está sempre lá. Pais e filhos, mães e filhas, maridos e esposas, namorados e namoradas, velhos amigos. Quando os aviões bateram nas torres gêmeas, até onde eu saiba, nenhuma das ligações dos passageiros eram mensagens de ódio ou vingança, eram todas mensagens de amor. Se você procurar, tenho um leve pressentimento que descobrirá que o amor na verdade... está por toda parte.”
Essas palavras em off são as primeiras que ouvimos no filme cujo título abre esta página. Enquanto nosso olhar capta na tela a frase “Cinco semanas antes do Natal”, que nos situa no tempo, o espaço vai se revelando: o movimento alegre das compras e a ornamentação típica amenizam o inverno rigoroso de Londres no pós- 11 de setembro. Começa o filme Love Actually, com o qual o diretor Richard Curtis, mestre no humor peculiar que destaca os ingleses, quis falar sobre este sentimento que é patrimônio dos humanos e assume faces distintas de acordo com a singularidade das pessoas. Que tédio viveríamos se todos amassem da mesma forma ...
Richard Curtis não fez muitos filmes, mas a todos imprimiu uma marca autoral que tem na comédia o traço distintivo. Ele pertence àquele grupo de artistas que conseguem infundir leveza a tudo o que criam. Escrevi leveza e não superficialidade.
De forma leve, mas nunca banal, Curtis faz um filme muito ágil. O roteiro criativo e a direção aberta a nuances constroem várias narrativas com uma dezena de personagens, ligados entre si direta ou indiretamente. O jovem e sério primeiro-ministro do Reino Unido (Hugh Grant) enamora-se de uma funcionária (Martine McCutcheon). Um escritor (Colin Firth), parte para o sul da França para terminar seu romance policial e se sente atraído pela faxineira portuguesa (Lúcia Moniz). A recém- casada (Keira Knightley) descobre que o melhor amigo de seu marido tem uma fixação por ela. A secretária (Laura Linney) de uma agência de publicidade mantém por seu chefe (Rodrigo Santoro) um tímido sentimento amoroso. Um roqueiro decadente busca resgatar a fama ao lançar um disco na semana de Natal e vai desvelando que é tanto um amante da música como da vida. Um executivo de meia idade (Alan Rickman) sente-se seduzido pela jovem colega de trabalho e magoa a mulher (Emma Thompson) que o ama de um jeito sincero e generoso. Até um gar
otinho de nove anos (Bill Nigh) é atingido pela flecha de Cupido e deixa o padrasto preocupado com sua atração pela garota mais popular do colégio, Olívia Olson.
Fica difícil não se envolver com as situações criadas, pois de alguma forma, em partes ou em seu conjunto, elas se parecem com algumas que já nos moveram. É possível que Curtis tenha buscado exatamente isso: um jogo especular onde possamos nos reconhecer em momentos dolorosos ou eufóricos, prosaicos ou poéticos, sempre quando enredados pelo sentimento amoroso.
É doloroso ver Karen descobrir que o marido comprou uma joia como presente de Natal para outra e não para ela, como ingenuamente supunha. É tocante a forma como Mark se declara para a jovem mulher de seu melhor amigo na noite de Natal, numa das cenas mais bonitas do filme. É patética a peregrinação do primeiro-ministro pelas ruas de um subúrbio londrino, na noite do dia 24, à procura da funcionária a quem havia transferido. É engraçada a maneira como interage o velho roqueiro politicamente tão incorreto. E o que dizer da declaração de amor de Bennet à moça que nem domina seu idioma, dentro de um restaurante onde trabalha como garçonete, diante da família que é de espantosa ignorância? Poderia ser ridícula. Da forma como foi conduzida pelo diretor, a cena se torna sublime. Aliás, Napoleão Bonaparte, que em matéria de coração era tão bom como em política, costumava dizer que entre o ridículo e o sublime, o passo que se dá é bem pequeno. Curtis conduz o filme com maestria, escapando de todo possível fiasco.
À medida que o Natal se aproxima, o desenrolar das tramas mostra as diferentes faces que pode assumir o amor, essa arte que nunca se aprende e sempre se sabe. Para alguns que assistiram ao filme comigo, ele pareceu “doce como um Cristmas Pudding””. Prefiro associá-lo a um panetone com suas muitas frutas espalhadas fazendo composição harmoniosa na massa que é o todo. Um filme esperançoso, sem dramas, com as cores alegres da comédia sutil. Muito bom para assistir nesta época do ano onde tendemos a cultivar nossa fé na humanidade. Ou seja, em nós mesmos.
ESTILO ELEGANTE
Richard Curtis
Neo-zelandês por nascimento, Richard Curtis, atualmente com 55 anos, viveu em países diferentes até a adolescência, já que seu pai, executivo da Unilever, trabalhava rodando o mundo. Nas lembranças de infância do diretor aparecem com alguma frequência Filipinas e Suécia. Aos 11 anos se fixou definitivamente em Londres. Estudou nos melhores colégios ingleses e em 1973 estava em Oxford, cursando Língua e Literatura inglesas. Ali conheceu Rowan Atkinson, com quem trabalharia nos primeiros filmes. No final do curso, começou um relacionamento, que deu em casamento e quatro filhos, com a bisneta do psicanalista Sigmund Freud, Emma Freud. Ela é locutora de rádio e editora de roteiros.
Curtis começou fazendo comédias, e a escolha do gênero parece sinalizar para uma maneira de viver e sentir. Para parodiar os Bee Gees, criou o grupo The Hee Bee Gee Bees, que foi seu debut na televisão. Mr Bean seria um programa de enorme sucesso.
No cinema tem títulos premiados: Um lugar chamado Nothing Hill, Quatro casamentos e um funeral, O diário de Bridget Jones. Fez filmes menores, bem comerciais, aos quais contudo nunca deixou de imprimir uma elegância às vezes simples, outras, muito sofisticada.
Gosta de trabalhar com Emma Thompson. Em 2003, foi listado pelo The Observer, como um dos 50 melhores autores de comédia em língua inglesa de todos os tempos. Dá gosto ouvi-lo nos depoimentos nos extras do filme, comentando inclusive sobre Rodrigo Santoro, “um grande ator que fez pouco sucesso em seu país, o Brasil.”
Serviço
Título em inglês: Love Actually
Em português: O amor está em toda parte
Diretor: Richard Curtis
País de origem: Inglaterra
Gênero: Comédia
Elenco : Hugh Grant, Liam Neeson, Colin Firth, Emma Thompson, Laura Linney, Keira Knightley, Rowann Atkinson, Allan Rickman, Claudia Schiffer, Rodrigo Santoro e outros menos estrelados.