08 de julho de 2026

Brasil violento


| Tempo de leitura: 2 min

É triste constatar, mas o Mapa da Violência 2012, divulgado pelo Instituto Sangari, mostra o quanto o Brasil é um país violento e o quanto essa violência cresce de forma desenfreada. De acordo com o estudo, nos últimos 30 anos ultrapassamos a marca de 1 milhão de vítimas de homicídios. De 1980 a 2010, esse tipo de crime aumentou de 259%, um crescimento muito preocupante. Ainda segundo o documento, é difícil compreender como em um país sem conflitos étnicos ou religiosos e sem disputas territoriais ou de fronteiras - como é possível verificar em tantas outras partes do mundo - ocorre esse ‘extermínio’ de cidadãos. Como esses homicícios conseguem superar o total de mortes ocorridas nos principais conflitos armados que ocorrem pelo mundo? Difícil responder com precisão.

Mas o problema, talvez, esteja na comparação e não nas causas. Nossa violência é diferente. Em seus mais variados contornos, é um fenômeno histórico, vivamente inserido na própria constituição da sociedade brasileira. A escravidão exercida contra índios e negros, a enorme desigualdade social, o coronelismo e as oligarquias que tudo dominavam e tudo podiam são demonstrações claras desse comportamento autoritário e violento em que se consubstanciou nossa cultura e nossa mentalidade.

Mesmo com a constituição de um estado republicano, esses comportamentos nunca deixaram de existir completamente. Mais ‘envernizados’, apenas esconderam-se sob o manto de uma democracia que ainda hoje luta para consolidar-se. No fundo, embasaram a criação de um Estado caracterizado pelo autoritarismo burocrático, o que contribuiu enormemente para a permanência e a disseminação da corrupção, a continuidade do domínio oligárquico e certa subordinação dos poderes legislativo e judiciário às determinações do executivo.

Em seu conjunto, esses fatores atrapalharam durante muito tempo ação do Estado, permitindo a existência de dois países dentro de um único território, a Belíndia, como ironizou o economista Edmar Bacha, em 1974. Para ele, o Brasil era uma mistura entre a pequena e rica Bélgica e enorme e pobre Índia. Mas se Bacha se referia apenas à distribuição de renda, poderíamos com tranquilidade estender essa ironia para outras áreas, como a saúde, educação e saneamento básico.

Nesse mundo mais complexo em que vivemos, essa dicotomia, aliada às nossas características culturais e aos problemas de uma urbanização desordenada, acabou levando a um embate dentro do próprio país, que se expressa nas mais diversas formas de violência, ou seja, contra a mulher, a criança, o idoso, violência sexual, política, violência psicológica, física e verbal, dentre outras.

Mas não devemos desanimar, pois é possível diminuir essa violência. Para isso, no entanto, seria importante unificar novamente a ‘Belíndia’, o que significa combater a corrupção, fortalecer os poderes legislativo e judiciário, diminuir a desigualdade social e investir maciçamente em saúde e educação. Difícil? Sim. Mas é preciso começar.