20 de março de 2026

Ré confessa


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A moça bisbilhoteira se aproximou ao entreouvir conversa sobre religião

Perguntou alto e a queima-roupa a alguém que não conhecia e que conversava sobre o assunto: ‘Você tem religião?’ As outras mulheres presentes, por um segundo interromperam suas conversas causando aquele silêncio pesado que, curiosíssimo, é a trilha sonora dos momentos de grande expectativa. ‘Não, não tenho.’

Os olhos de todas, minutos antes focados no nada, voltaram-se para a mulher, agora considerada ré confessa do pecado da ausência de fé. Incomodada, a moça tornou a perguntar, quase de forma afirmativa e sugerindo a resposta a meia voz, como se temesse o que poderia ouvir: ‘Mas você é cristã. Não é?’

Ficou lívida, assustou-se, mostrou-se claramente agredida, quando ouviu o não proferido de forma tranquila, sem o menor indício de agressividade. No segundo após, o mulherio desconcertado falou ao mesmo tempo para quebrar a tensão coletiva, diante da terrível revelação. No meio das vozes, o perceptível ‘nossa’, de reprovação. Cena curiosa, desafiante e provocativa, estimulante e instigadora. Deu o que pensar.

O cristianismo, por definição, é o conjunto das religiões baseadas nos ensinamentos, na pessoa e na vida de Jesus Cristo. Judeu por nascimento, historicamente sem profissão definida, sua vida seria o resultado de concepção divina. São-lhe atribuídos milagres dos quais apenas a fé é testemunha, relatados em livros escritos décadas depois de sua morte física, por pessoas que se intitulavam cristãs: portanto sem neutralidade.

Porém permito-me ver sua doutrina como confortante e bonita colcha de retalhos tirados do Budismo, do Judaísmo, do Xintoísmo e de princípios filosóficos encontrados no neoplatonismo, no estoicismo e no gnosticismo, costurada por Amor e Respeito, sentimentos sem os quais tornar-se-ia intolerável e impossível a convivência humana.

A nova seita teria dado certo porque, quando surgiram, os princípios cristãos deram importância, esperança e protegeram a população mais carente e numerosa da época, constituída por escravos, mulheres e crianças.

Pode ser que sim, pode ser que não. Todavia o perceptível é que cristãos ficam mais compassivos, amáveis, preocupados com o próximo, procuram agradar-se mutuamente, demonstram desejo de aproximação e dão visível trégua na hostilidade do cotidiano... às vésperas da comemoração do nascimento de Cristo, supostamente acontecida na data de 25 de dezembro, que chamam de Natal.

A comemoração desse aniversário, desse ‘re-nascimento’ – do Ser, para os cristãos e para todos, dos sentimentos e possibilidades que a data simboliza – é fascinante. Imaginar ter a oportunidade de poder percorrer todos os caminhos outra vez; ao refazer percursos, corrigir erros e, ao alcançar Paz, ser feliz com os acertos - pequenos que sejam - é alentador. É fonte de Esperança para o mundo melhor, que todos sonhamos. Renascer é recrescer; renovar; revigorar; rejuvenescer; reproduzir, ressurgir; readquirir.

Comemoremos, portanto, a data de aniversário de Cristo, símbolo de todas essas possibilidades, dentro de cada coração. Então, Feliz Aniversário de Cristo para todos nós, cristãos ou não-cristãos.

1 - Começa dezembro, Father Christmas - ou Santa Claus - segundo o imaginário infantil desce do Polo Norte, visita e conversa com as crianças inglesas. Encontram-se durante as festividades de encerramento escolar, shoppings, lojas de departamentos e brinquedos. Ele atende ora em tendas decoradas como iglus ora em casinhas de brinquedo. As crianças lhe entregam cartas com pedidos, ele reforça a necessidade de comportamento para que elas mereçam recompensas.
2 - Há necessidade de agendamento de horário para tais encontros. As crianças não se atropelam, pais e avós não agridem para garantir proximidade com ele. Porém perdeu a hora, perdeu a vez. Ninguém chia e as visitas (com a presença dos pais e segurança do local) duram tempo estipulado. Trilha sonora tocando o tempo inteiro nos corredores e interiores das lojas ressuscita Dean Martin e Bing Crosby, através de clássicos como Jingle Bells e White Christmas.
3 - Se há igreja perto, na noite de 24 de dezembro os católicos vão à Missa do Galo. E só. Antes de dormir, as crianças montam mesinha perto das lareiras, enfeitam-nas e deixam pratinho com bolo especial e caneca com leite para o Papai Noel, cenoura para a rena. Pela manhã encontram metade do leite, do bolo e da cenoura, sinais que tiveram visitantes pela madrugada. Sob a árvore, milhões de presentes que avós, tios, padrinhos levaram nos dias anteriores.
4 - Despertar tardio, filhos e pais abrem pacotes e se divertem pondo os brinquedos para funcionar. As mães vão para a cozinha preparar o brunch: feijão branco com molho de tomate, salsichas, cogumelos, ovos fritos, bacon, torradas, suco de fruta ou café – com ou sem leite. Ânimos e entusiasmos arrefecidos e estabilizados, é hora do banho e da preparação para o encontro com os familiares decanos e veteranos. Sem transporte público, se o encontro é longe, vão de carro e tiram no palito quem do casal vai tomar vinho, quem vai dirigir, porque polícia não tem Natal.
5 - No cardápio, salsicha, bacon, peru, vegetais, purê e batata assada, Christmas Pudding. À mesa todos usam coroa de papel, tornando-se imaginários reis e rainhas e ficam de olho na televisão porque, às quinze horas em ponto, a rainha Elizabeth entra em cadeia nacional para cumprimentar súditos do Reino Unido, da Austrália, da Nova Zelândia, do Canadá e de onde mais restar um país hoje livre, outrora conquistado por aquele outro, onde o sol nunca se punha.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br