08 de julho de 2026

Furor pelas compras


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Eu compro. Tu compras. Ele (você) compra. Nós compramos. Vós comprais. Elas compram. Essa é conjugação da realidade nua e crua nesta semana de Natal. A população está na rua. Mas só de passagem. Todos os passos levam aos estabelecimentos comerciais. Não importa a classificação dos produtos. O que todo mundo quer mesmo é comprar. Seja lá o que for.

Pagar já são outros quinhentos. A conjugação nesta área só se torna fácil no verbo. A prática tem se mostrado bem diferente.

Pouca gente tem pago o que compra até o fim. Quando muito, paga apenas a entrada. Já na primeira prestação a coisa desanda. Assim, o número de inadimplentes (palavra bonita, mas que significa caloteiros) tem crescido de ano para ano.

No furor (dicionário faz bem, tira até o entusiasmo exacerbado por comprar sem necessidade!) pelas compras, o pessoal nem pensa em como pagar depois. O que conta mesmo é a satisfação do momento. Quase ninguém faz uma reflexão antes sobre o que fazer para quitar as prestações infladas pelos juros e correções monetárias.

Hoje em dia, de um rolo de papel higiênico à casa própria, tudo entra para o rol dos financiamentos.

O cliente (freguês está fora de moda!) usa o cartão de crédito para fazer as menores compras. Se o antigo fiado sempre saiu caro por uma série de razões, imagine então a fórmula moderna de dinheiro digitalizado. O consumidor paga taxas e mais taxas às administradoras.

De graça, mesmo, nem injeção estragada. No mínimo, cobrava-se pelo serviço de aplicação. Aliás, saindo fora da agulha, agora quem faz aplicação de dinheiro acaba pagando alguma coisa. As instituições financeiras costumam arrumar um jeito de abocanhar alguns trocados do investidor, haja vista para a tradicional caderneta de poupança. O poupador que fizer mais de dois saques por mês paga uma tarifa a cada retirada extra.

Se somente para guardar dinheiro, com pouco rendimento, o poupador precisa pagar, imagine então a situação do correntista.

Conta corrente em banco virou verdadeira corrente de arrecadação. Para a instituição, claro! Já que vem embutida no pacote uma série de possibilidades de empréstimos através do cartão de débitos.

O negócio é tão bom que as próprias empresas comerciais criam suas linhas de financiamento para o consumidor.

Mais ainda. Oferecem a possibilidade de o cliente também poder fazer empréstimo diretamente na loja. Tudo muito fácil. Você compra dinheiro. Sim, pegar numerário emprestado não passa de compra de moeda.

Não só nesta época de festas(?) mas, principalmente, durante o ano todo, as pessoas lucrariam mais se parassem para pensar que todo mal social provém não das privações, e sim do supérfluo.

Pior mesmo do que qualquer concretização de compra desnecessária acaba sendo a opção por pagar a aquisição em suaves prestações.

Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br