“Se eu quiser falar com Deus Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz”
Gilberto Gil
Ano: 1980. Autor da música e letra: Gilberto Gil. Tema: original e diferente para aquele contexto. Resultado: a música tornou-se um clássico da MPB, principalmente depois de ter sido gravada na voz de Elis Regina.
Ouvi, outra vez, recentemente, essa música e ela me soou muito especial. Pensei, então, em percorrer os versos inspirados de Gil e tentar reconhecer essa estrada que o levou a falar com Deus.
Em primeiro lugar, o paradoxo: para falar “tenho que calar a voz”. “Tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que encontrar a paz.” Então, Deus não gosta muito de barulho... Ele me ouve, principalmente, no silêncio. Não preciso de palavras, pelo menos dessas palavras vazias de sentido e simplesmente repetitivas.
“Tenho que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios.” Aí o poeta me traz a metáfora: como me desfazer dos nós? Quando penso em um nó me vejo frente a um desafio. O nó do sapato e da gravata pode ter múltiplas interpretações, tais como me livrar das amarras sociais. Mas o que dizer de me desfazer dos nós dos meus desejos e dos meus receios? Penso que seja me desapegar dos planos, dos sonhos e dos meus medos. Na verdade, me desapegar do controle do futuro, e me livrar da ansiedade do passado..
“Tenho que esquecer a data, tenho que perder a conta, tenho que ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nus.” Mais uma vez, esquecer o que não tem importância, perder a conta daquilo que nem é preciso contar, esvaziar-me e desnudar-me. Mostrar minha alma. Não devo usar roupas, disfarces, sejam eles quais forem, se eu quiser falar com Deus...
“Tenho que aceitar a dor, tenho que comer o pão que o diabo amassou”. Aceitar a dor quase sempre se mostra impossível, mas ninguém disse que tudo seria fácil... É bom me lembrar de que Ele pediu-nos que escolhêssemos a porta estreita...
“Tenho que virar um cão, tenho que lamber o chão dos palácios suntuosos do meu sonho.” E agora? Compreendo aqui a humildade, não a humilhação, mas humildar-me mesmo perante Aquele que é maior. Não me confundir nos valores suntuosos dos meus palácios construídos no ar.
“Tenho que me ver tristonho, tenho que me achar medonho e apesar de um mal tamanho, alegrar meu coração.” Sim, tristeza e alegria são os dois lados da mesma face. Não posso desejar só a alegria. Quando me vejo tristonha, aprendo, revejo, reflito. Sempre a dualidade. E como me faz crescer ao me ver feia, medonha, na minha pequenez e limitação, no meu eu menor... Ainda assim, apesar de um mal tamanho, compreender a alegria, a graça de viver, de estar aqui e agora... Alegrar meu coração...
“Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar, tenho que subir aos céus sem cordas para segurar.” Entregar-me sem medo, confiar sem reservas. Aventurar-me para confirmar minha crença.
“Tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar, decidido, pela estrada que ao findar vai dar em nada, nada, nada, nada do que eu pensava encontrar”. Dar as costas e dizer adeus ao efêmero, ao transitório, ao impermanente e caminhar decidida sempre em direção à Fonte. E, mais uma vez, humildar-me e estar aberta para receber o Essencial que me espera e que, com certeza, não será nada daquilo que eu, na minha limitada visão, planejei ou esperei encontrar.
Se eu quiser falar com Deus...
Meu coração agradeceu ao poeta, Gilberto Gil...
Quem sabe não seria bom se voltássemos a ouvir essa música?