Muitos dizem que a filosofia serve para quase nada, já que pensar e não praticar é perda de tempo. Discordo. Muitos não conhecem filosofia. Conhecessem, a vida em sociedade seria muito diferente e melhor.
Em razão da recente chacina ocorrida em Franca, acredito que todos refletimos sobre o doloroso fato e questionamos os porquês. Vamos à filosofia de Aristóteles. Pincei algumas frases, as quais, agrupadas têm sentido atual.
‘Haverá flagelo mais terrível do que a injustiça de armas na mão? A tragédia é a imitação de uma ação séria e concluída em si mesma... que, mediante uma série de casos que suscitam piedade e terror, tem por efeito aliviar e purificar a alma de tais paixões. Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado. É um hábito. A nossa compreensão do universo ainda é muito pequena para julgar o que quer que seja na nossa vida. O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete. A esperança é o sonho do homem acordado.
Não há nada na nossa inteligência que não tenha passado pelos sentidos. A única verdade é a realidade. Em tudo o que fazemos, temos em vista alguma outra coisa. A lei é a razão livre da paixão. A felicidade e a saúde são incompatíveis com a ociosidade. Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência’.
Aristóteles refletiu muito sobre a paixão. Para ele, a paixão é entendida como os apetites, a cólera, o medo, a audácia, a alegria, a inveja, o ódio, o desejo, a compaixão, a amizade, e, os sentimentos que são acompanhados de prazer ou dor. A paixão é inerente ao ser humano.
O agir ou deixar de agir, por vontade própria, é capaz de revelar o caráter humano, pois se o homem busca realizar um ato ruim de forma consciente, revela mau caráter.
Para o filósofo, o homem incontinente tende a buscar, não por convicção, os prazeres corporais que são excessivos e contrários à reta razão ao passo que aquele que, mesmo sofrendo com maus desejos, é capaz de agir de acordo com o que seria racionalmente correto deveria ser admirado. Sendo assim, cabe ao próprio homem pautar as suas condutas através das virtudes sendo senhor de suas paixões e responsável pela sua felicidade e infelicidade.
Podemos agir por impulso, sem raciocinar, ou até mesmo, por fraqueza. É possível encontrar por trás da conduta do autor da chacina, sentimentos de remorso e ou de reconhecimento de sua infelicidade, materializado pelo suicídio, que revela fuga de si mesmo.
No suicídio estampa-se a forma de resolver a situação que o vitimizava. Difícil é julgar, pois, as nossas condutas podem ser determinadas por traumas que não conseguimos nos desvencilhar.
Trauma é evento que ocorre de forma súbita e inesperada, irreversível, não familiar à vítima e está fora do seu controle; e decorre de situação estressante, capaz de originar sequelas. Os traumas causam consequências definitivas, mais ou menos graves, que influenciam na vida de quem o viveu.
Olhando para esse triste episódio que marcou a vida das famílias dos envolvidos e as nossas, refletimos sobre quem são as vítimas. Não é um pedido de socorro?
Nossos filhos não estão doentes por causa das nossas condutas em buscar ter ao invés de valorizar o ser? O fato poderia ter sido evitado?
A violência constitui grave problema social que precisa da intervenção urgente de todos!
Acir de Matos Gomes
Advogado e professor universitário