Há uma semana, o prefeito Sidnei Rocha (PSDB) sofreu dupla derrota na Câmara: perdeu o comando da Mesa Diretora e viu o bloco de oposição assumir as principais comissões permanentes. O resultado significa dizer que o governo enfrentará dificuldades para aprovar projetos no último ano da atual administração. Será preciso habilidade e poder de articulação para convencer os vereadores. A promessa é de endurecimento nas relações. O entrevistado de hoje é um dos responsáveis por esta mudança. “Vamos exigir respeito”, diz o presidente eleito, Válter Gomes (PSB).
Valtinho, como é chamado pelos amigos, é o vereador mais experiente da atual Câmara. São 49 anos de idade e mais de 20 anos de atuação no Legislativo. Foi presidente da casa em 1995. Empresário do setor gráfico - é dono da gráfica Francana -, ele é detentor de uma votação pulverizada por todas as regiões da cidade, resultado da militância na periferia, principalmente nos campos de futebol. Tem o hábito de registar todos os contatos que faz durante as visitas. Seu banco de dados, com nome, endereço e telefone, diz ele, soma cerca de 20 mil nomes.
Foi eleito pela 1ª vez em 1988, quando ainda era filiado ao PT. Deixou o partido no começo da década de 1990, descontente com o que chamava de excesso de radicalismo. Teve uma passagem pelo PSDB e está no PSB desde 2004. Tornou-se voz de respeito dentro do partido. É respeitado também tanto pela oposição quanto situação pela experiência e posicionamentos firmes.
Até o começo do segundo semestre, a falta de sintonia entre a oposição favorecia um cenário em que prevaleciam os interesses do governo no plenário. Em agosto, durante a votação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), ele despertou nos colegas a necessidade de uma atuação conjunta. “Precisamos evoluir e ter uma participação mais efetiva dos partidos. Precisamos nos valorizar como parlamento, pois hoje estamos relegados ao segundo plano”.
A orientação foi ouvida. A oposição unificou o discurso e passou a endurecer nas relações com o Executivo. Para aprovar a construção do viaduto, o grupo exigiu a apresentação de um estudo de impacto de vizinhança. A Prefeitura não cedeu e o projeto foi rejeitado. Ao ver companheiros sendo chamados de asnos pelo prefeito, se irritou e afirmou que passaria a exigir respeito. Valtinho também liderou o voto contrário à reforma administrativa proposta pelo atual presidente, Marco Garcia (PPS). “Não podemos criar mais marajás aqui dentro, não”. A proposta não passou.
No sábado, 3, os vereadores se reuniram para escolher o novo presidente da Câmara. Valtinho conseguiu somar votos de quatro partidos - PSB, PT, PTB e PP - e ganhou as eleições. “Só consegui costurar toda esta questão em relação à minha candidatura com este posicionamento. Da minha parte, a relação com o Executivo será respeitosa, mas teremos isonomia”.
Comércio - O senhor voltará a presidir a Câmara depois de 11 anos. Acredita que as mudanças em relação à primeira vez serão grandes?
Válter Gomes - O que muda um pouco mais é a experiência. Naquela época, estava no segundo mandato de vereador. Hoje, ocupo o quinto mandato. Ser presidente da Câmara de uma cidade do porte de Franca é uma honra. Acho que o ser humano tem a obrigação de participar politicamente, não só dos cargos eletivos, mas na associação de bairros, na representatividade da profissão que ocupa, na escola dos filhos. É muito gratificante representar o povo, ainda mais como o presidente da Câmara.
Comércio - Qual foi o fator fundamental da sua eleição para presidente?
Válter Gomes - Recentemente, foi feita uma pesquisa sobre a avaliação dos deputados e vimos que eles têm um desempenho satisfatório. A administração tem tido uma avaliação considerável também. A Câmara está apartada de toda esta situação e não deveria estar. Se a administração vai bem, é graças ao apoio que o Poder Legislativo dá ao Executivo. A gente vê que a Câmara tem sido alvo constante de críticas. Não quero desmerecer o trabalho da imprensa, mas o Legislativo é um órgão colegiado. Quando se tem a postura ou a iniciativa de um vereador, é ideia deste vereador. Ela pode ser positiva ou negativa, mas o que tem que se contar é a decisão final da instituição. Estas decisões têm sido acertadas em 99% das vezes. Para mim, o que falta é um pouco mais de comunicação. É levar a Câmara para mais perto da população e a sociedade saber dos poderes que a Câmara tem.
Comércio - Como melhorar esta comunicação?
Válter Gomes - A intenção é mostrar o trabalho feito pelos vereadores. Vamos gravar entrevistas e enviar para as rádios. Também deveremos lançar alguma publicidade da Câmara, mostrando este trabalho e colocando os assuntos polêmicos e importantes em primeiro plano.
Comércio - Mais do que melhorar a comunicação não seria preciso uma mudança no comportamento dos vereadores? Este ano foi marcado por muitas discussões e bate-boca no plenário...
Válter Gomes - Isto é uma questão de ética. Eu, enquanto vereador, me pauto muito por este princípio. Raramente você vê o vereador Válter Gomes entrar num conflito desta natureza. É saber respeitar o colega que também foi eleito vereador e debater no campo das ideias, vencer pelo argumento. O voto não pode ser apenas sim ou não. Ele tem de ser fundamentado.
Comércio - O senhor concorda com a afirmação do atual presidente, Marco Garcia, de que tem vereador que, se pagasse para trabalhar, ainda seria caro?
Válter Gomes - Costumo dizer que o vereador passa por um concurso público há cada quatro anos. Às vezes, é mais fácil você arrumar dinheiro do que voto. O voto é uma conquista que decorre da confiança do eleitor. Se o vereador for ruim, ficará de fora. O eleitor é muito sábio e faz sua opção. Ele coloca ali o retrato do que imagina de um vereador. Então, não posso concordar com esta afirmação. Vou valorizar o Legislativo. O vereador tem um cargo muito altruísta. Ele é o representante do povo frente ao poder público municipal. O vereador tem de ser respeitado e valorizado como uma autoridade. Para que isto ocorra, ele tem que ter seus ideais e deixar as questões pessoais de lado e pensar, principalmente, no interesse público.
Comércio - O senhor foi um dos que defenderam a Câmara quando o prefeito insinuou que os vereadores que defendiam o semáforo inteligente como opção ao viaduto eram asnos. Faltou por parte o prefeito o respeito que o senhor tanto cobra?
Válter Gomes - O respeito vai acontecer de um jeito ou de outro. Nós, enquanto poder constituído, e eu à frente da Câmara, não admitiremos este tipo de insinuação. A Câmara vai ser respeitada. Os debates vão ser respeitosos também em relação ao Poder Executivo. Quando se debate assuntos de interesse público, que visam o bem comum, não temos que aceitar este tipo de colocação. O prefeito jamais poderia ter feito uma afirmação desta natureza. A Câmara dá sustentação ao prefeito e ele está falando isto sem base (que a oposição vota contra tudo). Nós analisamos, ao longo do ano, 174 projetos de lei e aprovamos 170. Dos 14 projetos de resolução apresentados pelo Executivo, ele retirou um e aprovamos os outros 13. A estatística comprova o que estou falando: a Câmara é parte integrante da administração. Se o Executivo vai bem, ele tem o apoio da Câmara. Neste caso específico (do viaduto), acho que faltou uma habilidade muito grande da liderança do prefeito na Câmara. A liderança sabia que não tinha os votos e, simplesmente, quis criar uma polêmica. Nós não votamos contra esta ou aquela construção. Temos que nos pautar pela legalidade e o processo não estava devidamente instruído. Faltou o impacto de vizinhança.
Comércio - Como será o relacionamento entre a Câmara e o Executivo em 2012?
Válter Gomes - Eu vou conversar de igual para igual com o prefeito. Vamos respeitar e exigir respeito com a Câmara da mesma forma. Este episódio (asno) uniu um pouco mais a Câmara. Quando você tem as coisas muito fáceis, você vai fazendo de qualquer jeito e jogando lá no plenário. Agora, não. Os projetos vão ser bem debatidos e a população vai saber, vai conhecer a opinião da Câmara. Vamos priorizar o interesse público acima de tudo.
Comércio - A sucessão municipal vai interferir nos trabalhos da Câmara?
Válter Gomes - Acho um pouco prematuro falar em eleição. Os partidos estão se organizando. Acredito que, pela primeira vez na história, nós teremos o segundo turno em Franca.
Comércio - Na sua opinião, quem deveria ser o candidato do PSB à Prefeitura: Joaquim Ribeiro ou Marco Aurélio Ubiali?
Válter Gomes - É uma questão interna. Os dois candidatos têm potencial. Quem for o escolhido pelo partido, terá o meu apoio. O Ubiali vem fazendo investimentos constantes no partido, que está muito organizado. Ele tem um cargo de suplente de deputado federal. Se esta cadeira se efetivar, creio que não podemos perder um deputado federal. O doutor Joaquim, por sua vez, é uma pessoa que há muitos anos vem prestando relevantes serviços para a sociedade. É uma liderança natural que flutua em todos os setores. Qualquer um dos dois, vamos apoiar, pois estaremos bem representados.
Comércio - O senhor pretende dar sequência ao projeto da reforma administrativa da Câmara que foi adiada por sugestão do seu partido?
Válter Gomes - A reforma, sem nenhuma crítica pessoal, não foi aceita por nós, pois não queremos “trem da alegria” dentro da Câmara. Da forma que ela estava sendo proposta, com funcionários podendo se afastar por dois anos e receber salários integrais, era inadmissível. Temos de ver o mundo real. O dinheiro público precisa ser bem gasto. É preciso haver um parâmetro entre a iniciativa privada e os servidores públicos. Temos de pagar um salário justo e merecido, mas não podemos ser fantasiosos. Não podemos ter um salário de marajá dentro da Câmara. Faremos tudo dentro da legalidade. Se precisar, vamos fazer concurso público.
Comércio - Ao vencer as eleições, o senhor anunciou que faria mudanças. O que pode nos adiantar?
Válter Gomes - As mudanças são naturais. Os partidos que compuseram esta proposta, que somaram comigo, cada um vê a Câmara de uma maneira. Mudanças vão acontecer, mas não quero criar alarde nos funcionários. Cada um tem um estilo de administração e, logo, logo, vocês vão ver o que pretendo implementar.
Comércio - O senhor é vereador pela 5ª vez. Não planeja vôos maiores, como a Prefeitura ou se tornar deputado?
Válter Gomes - Já tive vários convites, mas sou uma pessoa de origem humilde. Hoje, o meu dinheiro, ganho trabalhando. No momento, não penso nisto, é uma questão de partido. Todo mundo sonha. Quem sabe um dia? Estou preparado para tudo.