“Quem não encontra seu chão
Faz seu castelo no ar.”
Edu Lobo
O verso acima está em uma composição de Edu Lobo, Gingado Dobrado. Eu não a conhecia até que a ouvi interpretada pela cantora Vânia Bastos que esteve recentemente em Franca, em um maravilhoso show apresentado no SESI. Ainda que o restante da letra não se relacione profundamente com essa ideia, pois lá o cantor brinca com a rima das palavras, essa frase marcou minha sensibilidade e meus ouvidos desejaram ouvi-la novamente. Comprei o CD da cantora e voltei a ouvir a música.
O entendimento parece simples, mas a compreensão passa por caminhos mais sutis. Eu me perguntei o que seria encontrar o meu chão. Seria o chão da terra, onde pisamos? Seria o nosso país, chão onde nascemos? Seria o lar, espaço especial para cada um, onde tudo nasce e renasce a cada dia? Seria o encontro da profissão, o trabalho que me propus realizar na vida? Onde estaria esse chão e por que alguém não o encontraria?
Meu olhar aprofundou-se nas questões e pude enxergar que não somos capazes de realizar nada se não estivermos alicerçados em um chão. Ele pode ser os valores nos quais eu acredito e pode ser principalmente o meu propósito de vida, ou ainda a minha missão nessa vida. A tradição hindu chama isso de dharma, ou seja, todos nós estamos aqui para realizar alguma coisa. Cada um tem um talento singular ou especial para oferecer ao outro e à vida. Temos que nos enraizar em algo significativo para que a nossa vida adquira sentido real. A raiz da palavra dharma, em sânscrito, significa “sustentar, preservar”.
O que me sustenta? Como descobrir meu dharma?
Para alguns é muito fácil, pois o talento inato desabrocha e a facilidade para realizar acontece. Isso é fácil de ver nas artes, pintura, música, literatura... Mas e quando não se tem o dom artístico? Há vários dons que não são tão artísticos na acepção comum de arte, mas tornam-se magistrais nas mãos daqueles que sabem bem cozinhar, plantar, decorar, ensinar... O dharma realizado nas mãos de um cirurgião, de um engenheiro ou de um advogado... O dharma especial revelado nas ações mais simples, mas nem por isso menos importantes... O que faríamos sem a experiência de um pedreiro, a importância de um eletricista ou da especificidade de um técnico em diferentes modalidades? O dharma é sempre algo que eu posso realizar com meus talentos exclusivos. Quando estamos expressando o nosso talento individual, ou nossos diferentes talentos, pois podemos ter vários, ficamos tão felizes que perdemos a noção de tempo.
O autor indiano Deepak Chopra pede para nos fazermos a seguinte pergunta: “Se você não tivesse problemas financeiros e dispusesse de todo o tempo do mundo, o que faria?” Está aí o seu dharma. Está aí o seu chão. É esse o lugar onde colocar as raízes. Encontrar o seu chão, como nos diz o poeta Edu Lobo, é firmar o olhar em uma direção, tendo porém os pés bem enraizados no seu propósito de vida. Sem isso, corremos o risco de construir o nosso castelo no ar e, quem sabe, vê-lo desmoronar...