É possível, talvez até provável, que as minhas ponderações de hoje não agradem a todos. Mas quem fala a verdade não merece castigo, senti-me no dever de fazê-las.
Há alguns dias fui a um velório me despedir de uma pessoa amiga que faleceu prematuramente. Devo confessar que não encontrei no local um ambiente de velório, de consternação pela perda do ente querido, mas sim de festa, e festa animada.
É de conhecimento geral que em alguns países, especialmente orientais, os velórios ganham contornos festivos. Porém isso, efetivamente, não é e nunca foi da tradição do povo brasileiro. O tal do ‘beber o defunto’ é muito mais retórico e folclórico do que realidade concreta em nossa sociedade.
Naquele dia específico e, de resto, em todos os velórios que tenho comparecido, a conversa corre solta e em tom bastante alto. Fala-se de tudo, não obstante a advertência enfática nas paredes do recinto pedindo silêncio. Parece até que o falecido vira mero coadjuvante naquele ambiente. Em uma roda, o assunto era a crise econômica européia e seus possíveis reflexos na economia brasileira. Os debatedores divergiam quanto aos efeitos dela no Brasil, sob os olhares e ouvidos atentos de vários outros.
Resolvi então mudar de roda e me deparei com outro debate acalorado sobre o campeonato brasileiro. Naquela altura da competição 5 times ainda tinham chances de ser campeão e cada um elegeu um como sendo o provável.
Para apimentar mais a discussão, a rodada do campeonato do final de semana anterior havia sido eletrizante, com vários resultados inesperados.
Mudei novamente de roda e me deparei com uma situação ainda mais inaceitável. Uma pessoa que havia assistido a um show com o humorista Ari Toledo aproveitou a ocasião e a platéia para contar as ‘carimbadas do Ari’. A cada piada o riso corria solto, sem a menor censura e sem o menor pudor.
Outros debatiam a decisão judicial que autorização para o casamento de pessoas do mesmo sexo. Óbvio que pela própria natureza controvertida da matéria, o debate era intenso e a plenos pulmões.
Percebi então que apenas os familiares mais íntimos da pessoa falecida e alguns poucos amigos mantinham-se em clima de velório e demonstravam o sentimento pela perda do ente querido. Então, pensei comigo, será que não é chegado o momento das pessoas terem um comportamento adequado e de respeito para com a pessoa que nos deixou e principalmente com os seus familiares?
Óbvio que para todos os que acreditam na vida depois da morte do corpo físico o sofrimento maior decorre do desenlace, da ruptura do convívio e da saudade que, certamente, essa perda trará, pois, como já foi dito com bastante propriedade: ‘não morremos, entramos para a vida’.
Celebrar momentos felizes da vida é louvável, mas respeitar a dor e o luto das pessoas que perderam entes queridos é manifestação de solidariedade e, principalmente, de respeito.
Se não for para ter esse comportamento, melhor não ir ao velório.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca