08 de julho de 2026

Outra extravagância


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Não bastasse ter desapropriado o ‘esqueleto’ próximo ao Poliesportivo, o governo Sidnei Rocha ameaça novo e enorme desperdício de dinheiro público, com consequências graves para o futuro prefeito que receberá um verdadeiro ‘elefante branco’. Trata-se de negócio em andamento, a desapropriação de uma antiga fábrica de calçados defronte o cemitério Santo Agostinho com o objetivo de fazer uma creche. Para fazer isso, retira recursos do trânsito e da saúde.Geralmente, nos filmes e nas piadas, quando pessoas ricas rasgam dinheiro ou acendem charutos com notas, são consideradas apenas excêntricas.

E quando o fazem com dinheiro público? Estas vultosas desapropriações, longe de resolver o problema da qualidade do ensino local ou da falta de vagas nas creches, na verdade atendem outro objetivo, gerado pela falta de planejamento e de projetos de qualidade do atual governo: gastar o mínimo exigido pela legislação na educação, que inclusive motivou a rejeição de suas contas no ano passado pelo Tribunal de Contas do Estado. Os indicadores de Franca e suas escolas estão longe de serem as melhores do País, como gostaríamos que fossem e os quase dez mil analfabetos constatados pelo IBGE na cidade nos envergonha. Vou repetir os argumentos contra a nova ‘extravagância’ do prefeito. Como pode servir, de forma econômica e adequada a uma creche, um prédio cuja arquitetura e tecnologia foram projetadas quarenta anos atrás para a produção industrial de calçados, com um pé-direito duplo de seis metros de altura iluminado por sheds? O mundo infantil e do aprendizado demanda outro tipo de espaços, de acordo com sua escala, com iluminação e ventilação diretas para o exterior, com jardins e espaço para brincadeiras e socialização.

Como a secretaria de Educação não opinou a respeito, não se sabe sequer se o local é adequado em termos de localização para as milhares de mães que aguardam vagas nas creches (até porque há uma próxima), ou se é apenas um negócio imobiliário extravagante. Acresça-se a isso os altos e incertos custos de adaptação do prédio que não foram apresentados à Câmara, incluindo refazimento das instalações elétricas e sanitárias e sua obrigatória adaptação à lei de acessibilidade. Certamente, os custos serão muito maiores que novas construções esparramadas pelos bairros, que atenderiam melhor a necessidade e reduziria deslocamentos de mães e crianças pela cidade.

O prefeito deveria rever o assunto e retirar o projeto de lei. Afinal, com os milhões de reais disponíveis para este negócio, seria possível construir com arquitetura adequada as vagas que faltam nas creches ainda em seu governo e deixar ao menos uma herança bendita ao sucessor.

Para os que se indignaram com o aumento do número de vereadores, os custos desta brincadeira serão bem maiores.

Mauro Ferreira
Arquiteto e professor da UEMG, campus de Passos