Dia desses, ouvi a Oprah Winfrey (apresentadora de TV americana, uma das mulheres mais ricas dos EUA) dizer que gostaria de mudar muitas coisas na vida, a exceção de uma: a infância pobre. Estou com ela. Jamais pediria uma infância abastada, porque julgo que os sonhos e desejos são melhor alimentados em tempos de seca. A opulência pode trazer a apatia, que é uma grande tristeza. Todas as vezes que estou diante de um belo prato, recordo-me do quanto isso é maravilhoso. Mas para achar isso, não adianta ninguém te contar, é preciso ter vivido, não se empresta olhos aos outros...
Minha amiga Adriana diz que não me ressenti jamais da pobreza porque tive amor. O que é verdade. E também porque a comida, mesmo parca, às vezes faltando, sempre foi motivo de confraternização entre nós, jamais de tristeza. Crianças não sofrem com a pobreza, quem sofre são os pais - revelação tardia, acho, no tempo certo poderia ter minimizado sofrimentos por aí.
Então, vamos aos pratos da “pobreza”: miúdos de boi e porco se revelam verdadeiras iguarias quando bem feitos. É preciso uma boa dose de paciência e só um pouquinho de ousadia para experimentar, o que em geral não foi oferecido na infância. Eu, particularmente, não precisei de ousadia nenhuma, porque meu pai fazia miúdos de boi às 7 da manhã. Acordávamos salivando ainda as lembranças dos sonhos, para um esperto café da manhã constituído de miúdos, arroz e farinha, “pelamordedeus!”. Uma colher para cada filho, a frigideira no centro. Poderia faltar bofes, coração e línguas, mas alegria e “risaiada” tinham de sobra.
Se calhasse termos farinha e ovo, o menu era “cabeça de galo”, outra especialidade do meu pai. Acho que vocês não sabem do que se trata, mas é algo muito chique. Cozinha-se a farinha de mandioca branca e fina na água, o suficiente para dar um ponto de mingau fino. Tempera-se bem, com sal e pimenta do reino, colorau (um colorífico natural dado pelo urucum) e coentro, se gostar, ou cheiro verde. Antes da fervura, deposita-se os ovos cuidadosamente, pode-se utilizar uma concha rasa. Os ovos devem cozinhar à francesa: pouchè. Daí, num prato fundo, coloca-se o caldo e um ovo. (Só agora me ocorre a combinação desse caldo com uma fatia de pão italiano). O caldo fica quente, muito quente, perfumado e ardido - aquele tipo de prato convocado para quando há algum defunto precisando erguer-se da cova.
Miúdos de boi e porco... “cabeça de galo”...: acho uma benção não ter tido na infância a facilidade dos salgadinhos, das bolachas, dos doces. Digo isso porque acho que a grande oferta alimentícia não significa qualidade. Acho que comi melhor do que as crianças de hoje, embora comam mais colorido, mas tudo tão calórico. Não falo por saudosismo, sei da tendência natural e benéfica de nosso cérebro armazenar as lembranças boas e minimizar as ruins. Mas é flagrante que a população engorda e contamina o paladar. Não é a toa que muitos não conseguem sentir o gosto de um chuchu, da abobrinha, dos chás.
Acho que tive sorte, trabalhamos bem a falta lá em casa, exploramos as possibilidades, e tive pais dispostos a me servir alternativas alimentares inteligentes e tão ricas de história e sabor.
Dica da semana
Toda criança adora bife. Depois que crescemos aprendemos a falar e a comer ‘filet’, ‘steak’, ‘medalhão’. Quase todos nós temos bifes memoráveis na memória infantil. Dia desses, entrei numa loja e quando a atendente soube que eu tenho um restaurante confessou-me que seu sonho era simplesmente fritar bem um bife.
Não sei, parece coisa tão simples, mas acho que muitos não sabem que o segredo de toda carne deliciosa é preservar seu suco. Então vai aí uma dica simples para quem se sente frustrado por não acertar o bife.
Para fazer um bom bife, são necessárias apenas três coisas: um bife de boa qualidade, um fio de óleo e uma frigideira. Tempere o bife como quiser, coloque a frigideira em fogo alto (bem alto) e, quando estiver bem quente, coloque o fio de óleo e ponha um bife por vez na frigideira, assim a carne sela e não solta água, o suco fica preso na carne selada. Por isso, é necessária a alta temperatura, para que o bife grelhe sem ficar ali cozinhando. Daí pra frente, vai depender do ponto desejado da carne para sabermos quanto tempo o bife fica no fogo.
Passar bife é meio chato, espirra gordura, faz fumaça e, dependendo do número de bifes, é demorado também. Mas dá água na boca.