Existe uma frase feita que diz que ‘o futuro do planeta e das pessoas está diretamente ligado ao desenvolvimento de suas cidades’. Corrêa Neves Júnior (diretor-responsável do Comércio) registrou essa importante percepção em sua Gazetilha de 27 de novembro, ao abordar a necessária mudança de mentalidade do povo francano.
É perfeitamente possível ligar a frase à preocupação referida pelo nosso diretor. Franca é, infelizmente, pobre culturalmente e mesmo quem nada em dinheiro, tem atitudes ainda ligadas ao comportamento atrasado dos novos ricos e cultivam hábitos ultrapassados. Isso, aliás, reforça o que já é certo: dinheiro não traz cultura.
O que constatamos é que mesmo com a extraordinária ascensão sócio-econômica (aumento de renda com crescimento da classe média) não houve, consequentemente, um correspondente aumento do consumo de arte e cultura em geral.
Esse fato nos faz questionar sobre quais são as expectativas da população em geral, sobre as ações do poder público. Até quando continuaremos a ser cidade que ‘respira’ sapato?
Minha consideração não é depreciativa, é realista. O futuro não está na indústria de sapatos. O futuro está na inovação, coisa que os sapateiros de Franca pouco fizeram ao longo da sua história.
Nos meus trinta anos de agente de exportação de sapatos, o que mais ouvi foi calçadista dizer que tinha ‘desenvolvido’ uma coleção incrível que, na verdade, era cópia de sapatos italianos, espanhóis ou norte-americanos. Nada novo!
Portanto, a dificuldade local em inovar é uma característica que acaba por repercutir em todas as áreas e até parece que parte considerável da população acaba temendo o diferente e respirando aliviadamente quando um empreendimento - com características ‘não calçadistas’ - não é bem sucedido. Isso é triste e cruel, mas verdadeiro.
Mas, felizmente, existem alguns empreendedores francanos que merecem nosso respeito porque ousaram enfrentar a resistência local e enveredaram por atividades não pertencentes à cadeia calçadista.
Falo tudo isso para ressaltar a importância do poder público. Ele é quem pode detectar e estimular as potencialidades criativas que a comunidade local, certamente, possui. Ele quem tem dados e instrumentos capacitados para mobilizar a cidade na busca da sua diversificação e da sua modernização futura.
Nunca fui contra qualquer uma das estruturas existentes voltadas para o setor calçadista, mas fico entediado quando ouço agente públicos e políticos dizerem que trarão novos cursos (e etc) para o setor do calçado.
Precisamos de uma administração pública ousada, que embeleze silenciosamente a cidade (pois quem não gosta de beleza?), mas que faça barulho em busca da modernização econômica e cultural de Franca. Precisamos ser, nas ações públicas, ousados como são os verdadeiros empreendedores. Correr riscos calculados, mas ousar nas atitudes e nos objetivos.
Exercitar nossa capacidade de elaborar uma visão de futuro tem que ser estimulada pelo poder público local. Isso potencializará a nossa capacidade local de inovar e criar, atraindo e retendo talentos, empresas e novos investimentos. Salve maestro Nazir Bittar, Laboratório das Artes e todos que desafiam a cultura do sapato.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário