08 de julho de 2026

Diplomacia


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Desde 1889, quando da Proclamação da República, o Estado brasileiro separou-se oficialmente da igreja. Na época, essa igreja seria facilmente lida como a Católica Apostólica Romana. Porém, a despeito dessa constatação, a ideologia republicana defendia, e ainda defende, a separação do Estado de todas as crenças e religiões, não para diminui-las ou prejudicar-lhes, ao contrário, para preservar-lhes o direito e a liberdade de culto.

No entanto, parece que duas importantes instituições de nossa república ainda não conhecem muito bem as diretrizes republicanas, ou talvez não tenham ainda percebido, 122 anos depois, a separação entre as coisas sagradas da fé e as questões mais profanas da política, da economia e do cotidiano.

Matéria publicada pelo Comércio no sábado, 19/11, mostra que o Itamaraty concedeu passaportes diplomáticos para o chefe da Igreja Internacional do Reino de Deus, pastor Romildo Ribeiro Soares, conhecido por R. R. Soares, e para sua esposa, Maria Madalena Bezerra Soares.

Como nenhum dos dois exerce atividade parlamentar ou tem qualquer ligação com nossa diplomacia, condições necessárias para que um cidadão brasileiro possa obter tal documento, é possível imaginar que houve um favorecimento ilícito ao casal. Um favor que, se confirmado, mostra mais uma vez o uso privado que boa parte dos poderosos ainda insiste em fazer das engrenagens do Estado, pois os portadores desse tipo de passaporte têm tratamento privilegiado em aeroportos e alfândegas de todo o mundo.

O pior de tudo é que ninguém sabe explicar como isso aconteceu. O Itamaraty diz que atendeu a um pedido do Senado. A Coatex (Coordenação de Atividades Externas do Senado), órgão encarregado de intermediar os pedidos de passaportes ao Itamaraty, afirma desconhecer o documento. A Presidência do Senado e a primeira-secretaria também dizem não saber de onde saiu o pedido ou quem foi que o assinou.

Mas é assim mesmo. Quando as ‘podridões palacianas’ escapam para a imprensa, presidentes e ministros correm a dizer que nada viram e nada sabiam. É mais cômodo e menos desgastante, sobretudo para o Senado, já tão desgastado pelo tempo.

Se não fossem os técnicos do Senado, talvez ninguém descobrisse o óbvio.

Talvez não conseguissem enxergar o grau de parentesco entre o senador Marcelo Crivella e R. R. Soares, nem se lembrar que Crivella já tinha usado de seu mandato para favorecer familiares.

Se não fosse pela percepção atenta desses técnicos, talvez a culpa por mais esse atentado contra a nossa democracia ficasse por isso mesmo. Agora é agir contra de forma exemplar, a ponto de eliminar novas investidas. Será que vai ser feito?