Toda vez que se fala em aumento da criminalidade, insiste-se em clamar pela ampliação do aparelho de segurança pública, especialmente a máquina policial. A questão não é tão aritmética quanto parece.
Cadeias e penitenciárias, mercê da ação repressiva das polícias, estão perigosamente lotadas e, mesmo assim, a escalada criminosa continua. Logo, não é difícil raciocinar que a solução não deve estar, unicamente, na repressão.
Os governos têm o dever de dotar suas polícias de pessoal treinado e tecnologias capazes de enfrentar o crime em todas as suas nuances. Mas, antes de reprimir, é necessário aplicar medidas de prevenção. União, Estados e municípios precisam, com toda urgência, resgatar sua imensa divida social para com o povo, através de ações sociais e serviços públicos de qualidade moradia, saúde, educação, emprego, transporte, lazer etc.
O cidadão, com um mínimo de amparo e encaminhamento “tem o que perder” e, dessa forma, fica mais difícil ser cooptado pelos esquemas criminosos que costumam fazer o papel do Estado omisso, mas cobram caro por isso, muitas vezes até a própria vida do beneficiário.
Sem que o negligente Estado assuma seu efetivo papel de protetor e fomentador da vida social e produtiva, jamais se resolverá o problema da segurança pública.
Quando a repressão policial ocorre numa área, os criminosos migram naturalmente para outras menos policiadas e assim, sua ação maléfica vai se alastrando e roubando da sociedade os cidadãos que poderiam ser úteis e produtivos pelas próximas décadas. Estabelece-se, dessa forma, a nefasta briga de gato-e-rato que deixa para trás um imenso rastro de destruição do tecido social.
É preciso compreender que o Brasil de hoje e das últimas três décadas, no mínimo não é mais aquele País agrícola e atrasado.
O jovem contemporâneo é bombardeado por uma série de necessidades que seus pais e avós não tiveram quando jovens. Os produtos eletrônicos, tênis e roupas de grife, agora, são uma necessidade. Quem não os tem está fora da “turma”.
Outra agravante é a droga que, inacreditavelmente, alguns buscam legalizar. Sem condições de custear esses itens de consumo e seus vícios, muitos jovens começam com pequenos furtos e acabam enveredando para o tresloucado mundo do crime e do tráfico.
A polícia os prende, mas a solução não está simplesmente nisso. O Estado, como instituição, tem o dever de oferecer estabilidade e horizontes aos cidadãos. Os milhões arrecadados em impostos têm de servir para essa tarefa.
Daí a necessidade de eliminar todos os focos de corrupção e descaminhos. A polícia só deve ser chamada para combater o crime. Mas o mais importante é evitar que, por falta de amparo e oportunidades, o indivíduo se lance esse caminho...
Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo