16 de março de 2026

O rápido crescimento traz desafios a Franca. O maior: da mentalidade


| Tempo de leitura: 4 min
A cidade explodiu. É bom que se diga que nem tudo são flores e o rápido crescimento traz, consigo, desafios consideráveis. O maior é o da mentalidade

"O lar é onde o coração do homem cria raízes"
Henrik Ibsen,
dramaturgo norueguês


Franca comemora 187 anos nesta segunda-feira. A cidade experimentou múltiplos ciclos ao longo de sua história. Foi primeiro um amontoado de gente reunida num lugar que servia de pouso para os tropeiros que se aventuravam através da ‘estrada dos Goyazes’. O Brasil ainda era parte do reino de Portugal quando Dom João VI determinou a instalação da Vila Franca del Rey, em 1821. A instalação demorou tanto que na data que marca oficialmente sua fundação, em novembro de 1824, o Brasil já era um império independente há dois anos.

Levaria algum tempo ainda até que a diminuta vila tivesse atividade econômica de algum relevo. Foi só em meados daquele século que a extração de diamantes prosperou. Na sequência vieram as levas de imigrantes, especialmente italianos, que fariam da lida com o café seu principal ofício e trariam fama à região.

As primeiras décadas do século XX trouxeram consigo a indústria calçadista. Na esteira da pioneira Jaguar, multiplicaram-se as fábricas que fizeram de Franca um ícone, a ‘capital brasileira do calçado masculino’. Seguiram-se anos de prosperidade econômica.

Ainda assim, e apesar do intenso desenvolvimento industrial, Franca continuava provinciana, com escassas ofertas de serviços especializados. Tratamentos médicos complexos tinham que ser feitos em centros maiores, restaurantes sofisticados inexistiam, as áreas de compras estavam restritas ao Centro e à Estação e quem quisesse se graduar em alguma área que não fosse Direito, História, Letras, Arquitetura, Pedagogia ou outra meia dúzia de profissões tinha que mudar de cidade. Shoppings ou hipermercados só em Ribeirão.

Há cerca de 20 anos Franca começou a experimentar um fenômeno diferente, um ciclo que mudaria radicalmente seu perfil. Naquela época, mergulhado na redação do Comércio, enfrentava longas jornadas que se estendiam, cotidianamente, para muito depois da meia-noite. O trabalho, apaixonante, nunca foi um problema, mas o que fazer quando terminávamos a edição era um desafio e tanto. Nesta época eu (um arremedo de repórter), Sidnei Ribeiro (então editor do jornal, hoje editor do Caderno Brasil), Walter Ferraro (na época, operador de tituleira e, hoje, motorista) e mais alguns bons companheiros tínhamos um grande problema quando a edição do jornal era concluída, lá pelas 2h da madrugada. Onde comer? Não havia restaurantes abertos. Basicamente nos dividíamos entre duas opções. O ‘Preguiça Lanches’, um bolota na Ouvidor Freire, ou o ‘Bar dos Artistas’, botequim de fama suspeita ao lado do Correio.

Foi naquele início de anos 90 que uma novidade surgiu em Franca. Uma loja de conveniência. Ou melhor, duas. Fadel e Galo Branco começaram a operar na mesma semana. Foi uma pequena revolução. Não apenas gente de jornal, mas também quem passava a noite em vigília nos hospitais, viajantes, insones ou qualquer outro que precisasse comer alguma coisa na madrugada ganhava opções mais viáveis. Era um sinal.

Na sequência vieram o Franca Shopping, concessionárias de veículos, o shopping do Calçado, hipermercados. Bares se multiplicaram. Surgiram restaurantes italianos, japoneses, chineses, de alta gastronomia. A cidade ganhou novos hotéis. A Unifran agigantou-se com dezenas de opções de cursos que atraíram milhares de estudantes para a cidade.

Hospitais foram criados e os tradicionais se modernizaram. De cirurgias cardíacas a doenças como o câncer, hoje é rara a enfermidade que não tenha atendimento adequado em Franca. Bairros inteiros surgiram do nada, prédios residenciais e comerciais pipocam por toda a cidade, há novos projetos anunciados a cada semana.

A diversificação da economia finalmente aconteceu. Franca é hoje muito menos dependente do calçado. Há um florescente setor de lingeries, um polo tecnológico ativo com empresas que desenvolvem softwares, fábricas de chocolate que são referência e o setor de cosméticos ganha importância crescente.

A cidade explodiu. É bom que se diga que nem tudo são flores e o rápido crescimento traz, consigo, desafios consideráveis. Os congestionamentos já são uma realidade, o atendimento público de saúde ainda é um desafio e a violência cresce num ritmo assustador.

Impossível saber se o ritmo de crescimento atual se manterá pelos próximos 20 anos, mas é certo que até lá a cidade terá ultrapassado a marca dos 500 mil habitantes. Também é certo que até lá, econômica e fisicamente, a cidade terá deixado para trás qualquer traço de provincianismo.

Resta o maior dos desafios, que é o da mentalidade. Não basta ser grande, é preciso deixar para trás costumes conservadores demais e avançar rumo a uma sociedade melhor, mais plural, que saiba conviver com a diferença. Educação e saúde tem que ser prioridades e nossos líderes devem ficar verdadeiramente inconformados com indicadores que apontem a cidade como uma das piores rendas familiares do Estado. É preciso, sobretudo, um pacto - e ações efetivas - contra a violência crescente. Tudo isso e muito mais tem que ser feito por uma única, singela e importantíssima razão: Franca é nosso lar.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br