Conforme alguns dicionários da língua portuguesa, a palavra honestidade significa a qualidade do que é honesto e, assim, faz referência àquele ou àquela que é decente, recatado(a), integro(a), justo(a), probo(a) ou honrado(a). Portanto, ser honesto é ter a qualidade humana de comportar-se e expressar-se com sinceridade e coerência, respeitando os valores da justiça e a verdade.
No dia 22 este Comércio publicou na coluna ‘Objetiva’, artigo que trata do tema. Em determinado ponto, o articulista diz ‘o que se percebe, portanto, pela reação das pessoas e pela repercussão do fato, é que a honestidade passou para o lado do extraordinário. O que deveria ser normal transformou-se em estranhamento’, expressando um pensamento que entende ser o de todos. Não pude, ao refletir sobre suas palavras, deixar de me preocupar com a contundência que elas deixaram no texto e, de imediato, discordei delas.
Quando acabei de ler, ainda impressionado não com o cidadão que devolveu o notebook ao seu legítimo dono, mas, na verdade, com a afirmação do articulista, permiti que passasse pela minha tela mental todos os meus familiares (esposa, filhos, pais, irmãos etc.) e meus amigos (que, felizmente, não são poucos) e constatei, com muita satisfação, que são todos honestos. Pensei, também, naqueles com quem divido meu dia a dia no trabalho, nas questões da fé espiritual e, mesmo não sendo amigos na concepção mais íntima da palavra, são grandes companheiros de sonhos e realizações na sociedade. Observei que sempre foram honestos e decentes comigo e para com o que acreditam e praticam.
Portanto, no meu mundo de convívio (e não é pequeno) as pessoas são honestas. Conheço vários exemplos de devolução de objetos encontrados aos seus legítimos donos e, para mim, a prática de devolver o que não nos pertence é normal. Não critico a prática dos veículos de comunicação de divulgar esse tipo de ocorrência (o caso do Sr. Anildo e o notebook) e até com um maior destaque, porque a sociedade, de maneira geral, precisa de exemplos positivos para reforçar os seus valores éticos. Mas, colocar a prática da honestidade como algo ‘extraordinário’ é, de certa forma, ofensivo à maior parte da sociedade e sei que não foi essa a intenção do articulista.
Aproveito a oportunidade do assunto para estendê-lo a outra consideração. Acho que precisamos mudar essa concepção de que somente o trágico e ruim vende jornal. Se o jornal (e a mídia em geral) tem a função de informar, tem, também, a função de formar, mostrando que, ainda que pese a irresponsabilidade e a corrupção entre algumas pessoas, a maioria busca viver o seu cotidiano de forma decente. Não foram poucas as vezes que eu me senti incomodado com a fala de que ‘todo político é desonesto’. Essa afirmação é falsa. Ocupei cargo público e em momento algum me apropriei de um único clip que pertencesse à estrutura pública.
Sempre digo que na Câmara Federal tem 513 deputados e, certamente, uns 100 não devem valer grande coisa. Mas, há outros 413 deputados que, independente de posições partidárias, agem de forma honesta. Esses representam a maioria da população e estes deveriam ter todos os espaços possíveis na mídia, pois, assim, mostrariam que a honestidade é valor normal e não extraordinário.
NOTA DO EDITOR – Em primeiro lugar, a 'Objetiva' à qual o articulista se refere traz, por acaso, reflexão sobre uma notícia boa. Do tipo que o articulista sugere sentir falta no jornal. Mas, o mais importante, é não perder de vista que, diferente do que parece imaginar o articulista, o jornalismo não serve para publicar o óbvio nem para, gratuitamente, reproduzir o trágico. A imprensa está a apontar problemas, apresentar alternativas, incomodar o poder e cobrar soluções.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário