08 de julho de 2026

Os bruzundangas


| Tempo de leitura: 2 min

‘Os Bruzundangas’, obra póstuma de Lima Barreto, publicado em 1923, é uma coletânea de ironias em relação à sociedade de sua época. Suas crônicas narravam as histórias da fictícia nação de Bruzundanga, abordando temas como propinas, transações escusas, políticos e eleições. O autor, com a percepção aguda e crítica que lhe era peculiar, não deixava escapar nada. Satirizava os privilégios das classes poderosas e o poder das oligarquias. Fustigava também o descaso do país para com a saúde e educação e a futilidade das sanguessugas do erário público, além das mazelas e desigualdades que se escancaravam no Brasil da época.

Com estilo ágil, próximo da caricatura e zombaria, o escritor carioca ironizava os usos e costumes das autoridades da época, mostrando que eles não atendiam às necessidades do povo e tampouco lhe resolviam os problemas. Cuidavam apenas de enriquecer e garantir a situação de seus descendentes. Escorchavam de impostos a população e gozavam vencimentos, subsídios e aposentadorias duplicadas e triplicadas, afora os rendimentos que vinha de outras e quaisquer origens.

Difícil não reconhecer vários aspectos do Brasil de hoje nessas palavras. O caso dos paletós dos deputados paulistas que o diga. Se Lima ainda estivesse na ativa, como jornalista que era, com certeza escreveria uma crônica sobre os nobres parlamentares.

É difícil acreditar que em pleno século XXI, já adentrando a sua segunda década, ainda existam descalabros como esses, verdadeiros assaltos aos cofres públicos. É difícil compreender também como o Ministério Público demorou tanto para entrar com essa ação. Ou mesmo como a imprensa ainda não havia noticiado esse indecente privilégio.

Porém, mais incrível ainda é como nenhum deputado até hoje teve coragem de se posicionar contra essa tradição espúria. Nenhum, independentemente da ideologia partidária, foi capaz de se opor a esse abuso, o que os torna bastante parecidos, senão iguais, deputados e partidos.

Esse silêncio consensual talvez venha a provar que as atitudes e intenções de nossos deputados reafirmam ainda hoje as antigas críticas de Lima Barreto, fazendo de nossos homens públicos verdadeiros atentados contra a nossa própria democracia, por mais paradoxal que possa parecer.

A tese da Assembleia Legislativa, de que as duas parcelas de R$ 20.043,37 acrescidas no holerite dos deputados teriam natureza indenizatória, é de tal forma absurda que só poderia ser respondida com palavras que alcançassem a acidez e a fina ironia de Lima Barreto.

Como não as temos, só podemos nos confortar com o fim de mais um sorvedouro de dinheiro público. Mas devemos nos incomodar um pouco também. Além do Haiti, parece que a Bruzundanga também continua aqui.