A certeza de que existem em Franca craques a serem lapidados move o empresário Airton Martore, 48, há quase uma década. Dono de uma empresa de solados, ele mesmo já conviveu com o sonho de tornar-se um jogador de futebol profissional. Nascido em Franca, criado na roça até os 9 anos e depois na região da Vila Santos Dumont, Nenê Martore foi ponta esquerda nos times do Internacional da Vila Santos Dumont quando adolescente. O “Zé Sérgio”, apelido originado na semelhança, inclusive de seu jogo, com o rápido ponta esquerda do São Paulo, precisou trabalhar. Assim como vários amigos - Da Guia, Badu, Serginho Bala - não encontrou apoio, nem o direcionamento necessários.
Tornou-se modelista e empresário de sucesso. Casou-se, teve três filhas. Através do sonho de um sobrinho voltou ao Internacional vinte e dois anos depois. Encontrou a mesma realidade: muita qualidade em garotos com pouca chance de vingar no mundo profissional da bola. Desta vez, poderia fazer algo. Passou a manter as categorias de base e agenciar as revelações. Assumiu a base da Francana e hoje mantém 230 garotos em atividade. Os melhores são encaminhados a grandes clubes do futebol brasileiro. O empresário tem vínculo com mais de 20 times espalhados pelo País. Neste ano, dois dos seus meninos foram convocados para a seleção brasileira sub 15.
O mercado, no entanto, é difícil. Um exemplo: Weldinho, lateral vendido ao Corinthians em 2011, foi revelado no Internacional e encaminhado por Nenê ao Paulista de Jundiaí. Nem Nenê, nem o Internacional ganharam nada pela venda do lateral ao Corinthians devido a problemas com documentação. Foi para dar suporte aos clubes que coordena e fazer frente ao assédio de empresários -que qualifica como desonestos -, que Nenê criou a WA Sports, empresa de marketing esportivo que tem também a função de gerenciar a carreira de revelações do futebol. As apostas são várias, mas a certeza uma só: há muitos bons jogadores perambulando por Franca e região.
Comércio da Franca - Em uma lista de 29 atletas convocados para a seleção brasileira Sub 15 que irá ao Sulamericano em 2012, dois são garotos que treinaram durante anos no Internacional da Vila Santos Dumont. Hoje, Leo e Gustavo ocupam lugar de destaque nas categorias de base de clubes profissionais - Inter-RS e Corinthians, respectivamente. Há outras promessas vindo por aí?
Airton Martore (Nenê Martore) -As convocações foram frutos de um longo trabalho. Fomos coroados por um trabalho simples, mas correto. Estes garotos tiveram muitas dificuldades. O Leo saía de Ribeirão Corrente para treinar em Franca. Teve sucesso no Sul e é titular da seleção. O Gustavo veio de Tocantins aos 11 anos com o sonho de ser jogador de futebol, treinou conosco por três anos e passou pelo Olé Brasil antes de alcançar um lugar no Corinthians. Meu coração está muito alegre, pois é difícil ter dois jogadores em uma seleção de base saídos do mesmo lugar.
Comércio - O senhor os agencia?
Nenê Martore - O Leo, sim. Sua família é de Ribeirão Corrente. Seu pai é vigilante. Em relação ao Gustavo Tocantins temos participação, pois ele está sendo agenciado por uma empresa de São Paulo. Fizemos um acordo com eles a fim de mantermos um percentual em uma eventual negociação.
Comércio - É o grupo Sonda (famoso por investir em jogadores consagrados de futebol)?
Nenê Martore - Sim. Nós somos uma formiguinha neste universo. E quando isso acontece você tem de fazer um acordo com eles, porque senão é engolido. Eles são parceiros do Corinthians e se interessaram pelo Tocantins quando ele arrebentou em um torneio no qual fez 16 gols. Em quatro meses, o garoto saiu do ostracismo para a seleção brasileira. Passou a ser a menina dos olhos do Timão, foi contratado pela Nike e despertou a atenção do Grupo Sonda. Eles tentaram nos tirar do negócio, mas acabamos entrando em acordo, inclusive com a família do jogador. O Tocantins tem uma origem muito humilde.
Comércio - Como é o trabalho da WA Sports?
Nenê Martore - A empresa foi fundada para oferecer melhores condições a jovens promessas do futebol que estão ligadas às categorias de base do Internacional, na Vila Santos Dumont. Hoje, todo garoto que deseja ser jogador quer um suporte melhor e precisa ser assistido. O caminho para chegar ao profissionalismo no futebol é bastante difícil.
Comércio - Vocês já perderam jogadores importantes? É verdade que o Weldinho (hoje, no Corinthians) treinou no Inter e foi levado ao Paulista de Jundiaí por você?
Nenê Martore - Sim. Caso tivéssemos uma estrutura melhor na época poderíamos ter tido um desfecho mais favorável. O Weldinho estava conosco e após um jogo contra a base do Paulista - ganhamos de 3 a 0 -, ele e mais três atletas foram treinar lá para o Campeonato Estadual. Dois se tornaram profissionais e os outros acabaram dispensados. O Weldinho chegou ao time principal e teve destaque no último Paulistão quando fez gol contra o São Paulo em partida televisionada para todo o País. Ele acabou vendido ao Corinthians [na época o jornal “Lance!” divulgou que a negociação girou em torno de R$ 900 mil].
Comércio - Ganhou algo com a venda de Weldinho ao Corinthians?
Nenê Martore - Ainda não. Juridicamente, tenho de acertar os contratos que fizemos com o Paulista, mas houve mudança no grupo que dirigia o clube ...
Comércio - O senhor então depende da honra das pessoas que hoje estão no Paulista?
Nenê Martore - Sim.
Comércio - Há honra neste mercado?
Nenê Martore - Muito difícil. O fio de bigode não existe mais. Você necessita de contratos e muito bem elaborados.
Comércio - Isso motivou a criação da WA Sport?
Nenê Martore - Sim. Vimos a necessidade de nos organizar e criar diretrizes para que possamos abranger outras áreas de mercado. Além disso, é uma forma de diversificar os negócios. A WA Sport pode até vir a trazer para jogar em Franca um grande clube brasileiro, organizar torneios nacionais de categorias de base, entre outras promoções do gênero.
Comércio - Quantos garotos espalhados por clubes no Brasil são ligados a WA Sport?
Nenê Martore - Uns vinte estão espalhados por aí. Temos ligações com seis, oito clubes grandes do País e levamos jogadores periodicamente para eles.
Comércio - Quando o senhor iniciou o trabalho com a base do Internacional?
Nenê Martore - Há mais de sete anos. Cresci na Estação, na Vila Raycos. Joguei nas categorias de base do Internacional. Era ponta esquerda da categoria acima da que estava o Wagner Lopes (jogador revelado em Franca que passou pelo São Paulo, transferiu-se para o futebol japonês e se naturalizou chegando inclusive a jogar uma Copa do Mundo. Hoje, ele é técnico do Paulista de Jundiaí). Sempre houve bons atletas ali. Faltava um direcionamento. Quando propus me associar ao clube, o presidente (Wilson Olien Sanchez) aceitou. Organizamos o que já existia. Muitos empresários do futebol são desonestos. O Inter era cobaia. Vinham pessoas aqui e levavam os garotos. A maioria se perde antes do profissional e ficam jogados por aí. Bloqueamos isso e passamos a mensagem de que aqui alguém cuida dos meninos. Hoje, temos todas as categorias e disputamos torneios em Franca e região, sempre com muito sucesso. Os melhores, encaminhamos a clubes profissionais. Oferecemos suporte para que possam perseguir o sonho de ser jogador profissional. Fazemos um trabalho que realmente visa lucro, mas posteriormente queremos revertê-lo a fim de aumentar a eficiência do projeto, pois desejamos montar inclusive um Centro de Treinamento e melhorar nossa estrutura. No entanto, também damos ênfase ao lado social. Começamos com meninos de 11 anos e tentamos lapidá-los para que quando chegarem aos 17 anos possam ter uma chance de se tornar profissionais. Nós o acompanhamos. Caso não deem certo, tentamos recuperá-los para a vida.
Comércio - Aos 11 anos um menino já sabe que quer jogar futebol? Não é muito cedo?
Nenê Martore - Hoje, as coisas mudaram. Tudo foi antecipado. O sub 13 do Santos, por exemplo, custa R$ 150 mil/mês só em pagamento de salários. O Neymar com 14 anos ganhava R$ 25 mil por mês. Isso motivou mudanças, pois mexe com a cabeça desses garotos e de seus pais. O pai vê o menino batendo uma bolinha, percebe que ele é diferenciado e logo todos já sonham em ganhar a vida com o futebol.
Comércio - Este funil é mesmo muito grande?
Nenê Martore - Sim. O jogador tem de ser diferenciado. De mil, talvez nenhum alcance o profissionalismo. Hoje, o atleta tem de ser profissional desde cedo, manter o foco. Deve evitar bebidas, baladas, tomar cuidado com as amizades e manter a humildade. Sempre. Fico triste por aqueles que não conseguem. Muitas vezes, estes garotos são a única chance de uma família deixar as dificuldades.
Comércio - Você paga para garotos ficarem no Internacional?
Nenê Martore - Só damos ajuda de custo a alguns de destaque. Cem, duzentos reais, no máximo. Pouco, mas para eles faz diferença e serve até como motivação frente aos companheiros.
Comércio - Porque o senhor assinou contrato para cuidar das categorias de base da Francana?
Nenê Martore - A Francana é filiada à Federação Paulistade Futebol e o Internacional não é. Quem tem destaque no Inter vai disputar o Campeonato Estadual pela Francana. Hoje, disputamos o sub 15 e o sub 17 com a Veterana. Na época que acertamos o contrato, a Francana estava inscrita na FPF, mas não tinha equipe. Aproveitamos nossa estrutura e na primeira temporada passamos da fase inicial.
Comércio - A Francana ganha algo com esse contrato?
Nenê Martore - Sim. Caso tenhamos uma venda, a Francana terá um percentual. O Bruno que está no Goiás é um jogador que pode dar dinheiro ao clube. Há outro no Fluminense.
Comércio - Há intenção de filiar o Internacional à FPF?
Nenê Martore - Hoje, não mais, pois o valor a ser pago à FPF é altíssimo, algo entre R$ 600 e R$ 800 mil. Tentamos isso no começo de 2008, antes da parceria com a Francana quando o custo era R$ 60 mil e ainda podíamos dividir. Na ocasião, os conselheiros do clube não quiseram. Agora, não dá.
Comércio - Há alguém ligado a WA Sport que está prestes a estourar no futebol?
Nenê Martore - Acreditamos que sim. É o Bruno Smith que está no Fluminense.
Comércio - Alguns jogadores de destaque da Francana são da WA?
Nenê Martore - Sim. O Felipe Diniz, o Jhuan e o Diego Bife são da empresa. Acho que eles serão fundamentais na Série A-3 de 2012.
Comércio - O senhor tem intenção de se tornar agente Fifa?
Nenê Martore - Não. Falta-me até tempo para me dedicar a isso. Se for necessário, podemos fazer uma parceria com alguém interessado.