08 de julho de 2026

Triangulação incômoda


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Triangulações são sempre perigosas. Geralmente ocorrem em surdina, entre despistes, conchavos, mentiras e falsas encenações. Antigamente estavam mais afeitas aos casos amorosos. Modernamente, no entanto, parecem estar se embrenhando também pelos caminhos do mercado globalizado.

Mas as triangulações, a despeito da maestria como são engendradas, nunca conseguem enganar totalmente. Deixam sempre rastros de suas armações, causando mesmo nos envolvidos mais incautos uma forte impressão de que alguma coisa está errada. De que há algo solto no ar, esperando apenas um raciocínio mais lógico, ou até mesmo uma coragem mais intempestiva para colocar as coisas nos seus devidos lugares.

Porém, no caso da triangulação entre os calçados chineses, o Paraguai e o Brasil parece que as coisas estão bem mais claras. Só não as vê quem não quer. Em alguns dias no Paraguai uma repórter e um fotógrafo do Comércio constataram em loco o que nem o governo brasileiro nem o paraguaio quiseram ainda perceber. Pelo menos não parecem se esforçar para isso.

Com os números obtidos pela minuciosa e competente investigação de nossos repórteres, que colocou às claras todos os procedimentos desenvolvidos por chineses e paraguaios para burlar a sobretaxa de US$ 13,85, aplicada pelo governo brasileiro a cada par de calçado chinês, uma matemática simples pode resolver todo o imbróglio.

Vejamos. Com apenas 6,2 milhões de pessoas, o Paraguai importou, em 2010, 20 milhões de pares de sapatos da China. Segundo levantamento da Câmara da Indústria Calçadista do Paraguai, o consumo médio de compra em seu país nesse ano foi de 1,7 par por pessoa. Nesse sentido, deduz-se que os paraguaios consumiram aproximadamente 10,5 milhões de pares em 2010. Como as 500 indústrias do país produzem apenas 5 milhões de pares por ano e não conseguem exportar para Brasil ou Argentina por conta de seus altos custos, infere-se que tenham sobrado cerca de 15 mil pares chineses, que ninguém no Paraguai diz saber para onde foi.

Como se pode ver, essa é uma questão simples. Poderia ser colocada no Enem que seria facilmente resolvida por nossos estudantes. O problema, infelizmente, para a indústria calçadista brasileira em geral, e para a francana em particular, é que a questão não é de matemática simples. Há muitas outras questões por trás dessa obviedade numérica.

De posse dessa reportagem, os representantes de nossa indústria calçadista podem até começar a gritar. Resta saber, porém, se o governo brasileiro estará disposto a comprar briga com os chineses, ávidos compradores de nossas commodities.

Se o ministro Guido Mantega já anda torcendo para que os chineses não diminuam suas compras em função da crise internacional, imagine se tem intenção de mexer nesse vespeiro?