08 de julho de 2026

O Quixote da orquestra


| Tempo de leitura: 6 min
Nazir Bittar Filho no palco do Teatro Municipal

O ano era 1974 ou 1975. Ele não se lembra muito bem dos detalhes, afinal tinha de 4 para 5 anos. Mas a vitrola lhe vem claramente à memória. Era alemã, último tipo. Seu pai, o médico Nazir Bittar, havia comprado recentemente. Por meio dela, ali naquele ambiente de certa forma ainda calmo de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Nazir Bittar Filho, atual regente da Orquestra Sinfônica de Franca, tomou contato pela primeira vez com a música clássica.

Por incrível que pareça, Nazir se lembra do disco. Era a trilha sonora da novela “A Fábrica”, com o rosto da atriz Araci Balabanian na capa. A música era a Sinfonia nº 40 em Sol Menor de Mozart.

Mas esse não foi um fato isolado. Ouvia-se muita música em sua casa, pois o acesso à sofisticada vitrola era livre para todos. Os discos se misturavam. Simbad o Marujo, Bach, Beethoven e a Pequena Sereia, entre outros. E eles os ouviam indistintamente. Além dos discos, seu pai costumava sentar-se com ele e suas irmãs, Gláucia e Cléria, para assistir aos “Concertos para a Juventude”, um programa da TV Globo que buscava diminuir a distância entre a música erudita e o grande público.

Mas a vida ficou mais difícil no Rio. Para fugir do estresse e da violência que então se intensificavam dr. Nazir resolver retornar à sua terra natal. Já em Franca, o menino Nazir começou sua jornada escolar. Ele não gostava de futebol, não subia em árvores e nem se sujava, algo comum aos meninos da época. Como não fazia nada disso, era um pouco isolado, um “estranho no ninho”.

O que o tocava, mesmo, era a música. Enquanto suas irmãs tocavam piano, ele as ouvia e dedilhava o degrau da escada. Sua mãe percebeu e logo o colocou para aprender. Junto com a alegria, porém, vieram também as provocações. Afinal, piano não era para meninos. Até mesmo seus pais ouviam comentários preconceituosos.

Mas Gaudete Lobo Bittar, pernambucana de nascimento e carioca de criação, não se importava. Ao contrário, o incentivava, mostrando-lhe discos de grandes pianistas homens. “Todos os meninos que tocam piano hoje em Franca devem muito a mim”, lembra Nazir, abrindo um largo sorriso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Nazir iniciou seus estudos musicais no conservatório da escola Pestalozzi, com a professora Marlene Minervino de Castro, que muito o influenciou. “Uma professora rígida, mas muito carinhosa e competente”, lembra Nazir.

Aos 15 anos, ele decidiu ser ator. Marlene o aconselhou a seguir o curso profissionalizante de piano. Com ele, dizia a professora, melhoraria sua sensibilidade, aprofundando-se não apenas no conhecimento da música, mas da arte de forma geral.

Nazir aceitou o conselho e fez o técnico. O tiro foi certeiro. “Até então eu havia descoberto apenas o ‘cheiro da música’, mas não tinha mergulhado no frasco do perfume”, diz o maestro. Com o curso, ele aprendeu as estruturas da música. Aprendeu como fazê-la. Graças à qualidade do conservatório e a professores como Célia David, Célia Polo e Vicente de Paula a música passou a ter um gosto diferente para ele.

Após concluir o curso técnico, Nazir foi estudar regência na Unicamp. Durante o curso, vivenciou uma experiência em Londres. Foi para passear. Pensava em ficar três meses, mas ficou seis. “Costumo colocar várias metas em minha vida. Aí, deixo as coisas acontecerem. Aonde chegar, tudo bem, eu me adapto”, diz.

Nesse tempo, fez um curso de piano na The Guildhall School of Music. Estudou com Alan Hazeldine, um dos maiores regentes europeus. Mas só descobriu isso quando voltou ao Brasil, lembra Nazir. “Foi até bom, porque se soubesse disso durante o curso iria ficar nervoso e não iria aproveitá-lo tão bem.”

Depois que se formou, um professor da Unicamp o aconselhou a ir para a Alemanha, já que ele tinha uma tia morando lá. O plano era ficar três anos, o suficiente para terminar o mestrado. Porém, mais uma vez, o destino adiantou-se aos planos. Ficou 11 anos.

Dedicou-se aos estudos de musicologia para aprofundar seu conhecimento acadêmico. Não queria ser um regente qualquer. Queria conteúdo para aliá-lo à prática que já tinha. “Desconfio de maestros que não toquem, não cantem ou não tenham formação acadêmica. Mexer os braços qualquer um mexe”, provoca o maestro Nazir.

Trabalhou, também. Foi 2º assistente da Orquestra da Igreja de São Pantaleão, na cidade alemã Colônia, e monitor da Akademie Brasil-Europa, que reúne obras musicais em língua portuguesa.

Em 2004, conseguiu sua cidadania alemã. “Foi em maio”, lembra Nazir. Porém, seu pai faleceu um mês depois, o que acabou mexendo com suas convicções. Ficou mais um ano e meio na Europa, mas, aos poucos, foi abandonando tudo, trabalho e estudo. Colocou novamente em prática sua técnica. Imaginou algumas metas e deixou-se levar. Em apenas três caixas, despachou por mar seus 11 anos de Alemanha. E voltou ao Brasil.

A VOLTA
Sem saber ao certo o que fazer, voltou-se novamente para os estudos. Iniciou o doutorado na Unicamp. Porém, depois de muito tempo fora, logo descobriu que lá não havia mais espaço para ele. Prestou concurso para assistente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão, mas não foi bem sucedido.

Quando já pensava em nova mudança, eis que uma chamada telefônica o fez encarar um novo desafio, desta vez em sua cidade. “Era um músico da orquestra de Franca me convidando para assumir o cargo de maestro. Eles já estavam sem ninguém havia três meses.”

Nazir combinou um encontro para conhecê-los. Quando se deu conta da realidade vivida pelos músicos e pela orquestra, desanimou. “Eu olhava aquelas crianças sem idade para estar em uma orquestra. As pessoas entravam e saíam sem nenhuma organização. Não havia a menor estrutura. Aí eu pensei: você estudou tanto, Nazir, merecia uma coisa melhor.”

Mas não desistiu. Sua decepção foi compensada pelo brilho nos olhos dos músicos. “Havia força naqueles olhares”, lembra Nazir. Uma força que o fazia lembrar que um maestro não pode pensar apenas no brilhantismo da música e da apresentação. Precisa, também, enxergar no músico o ser humano. E na música, a ação transformadora que impacta a todos, os que tocam e os que ouvem. “A figura do maestro tradicional é despótica. Sempre tive crises por isso. O mundo com tantos problemas e o maestro histérico mexendo os braços. Mas, felizmente, isso está mudando.”

A despeito de todos esses pensamentos, Nazir Bittar assumiu a Orquestra Sinfônica de Franca (OSF) em abril de 2008. Durante esses quase quatro anos, muita coisa foi feita. Para além dos vários concertos realizados, Nazir estruturou a orquestra. Organizou arquivos, criou normas e vem desenvolvendo vários projetos. Se antes o amadorismo predominava, hoje já existe certa “ameaça” de uma possível profissionalização.

Nazir afirma que a Sinfônica de Franca precisa dar um passo definitivo. “Não dá para continuar assim. Ou a OSF se profissionaliza, ou vai morrer”, afirma categoricamente.

Para isso, vem desenvolvendo vários projetos. Já criou o “Adote um Músico”. Por meio dele, empresas ou pessoas físicas podem financiar o aprimoramento dos músicos da orquestra. O projeto, atualmente, já beneficia dez músicos. Criou, também, o projeto “Eu Conheço a Orquestra”, voltado para a visitação de alunos durante os ensaios da orquestra, uma idéia que pode ajudar a diminuir a distância desses meninos em relação à música clássica.

Porém, a maior esperança de Nazir encontra-se na Lei Rouanet. Nesse ano, ele conseguiu aprovar no MinC (Ministério da Cultura) o projeto da OSF. Dessa forma, as empresas podem financiar a orquestra e deduzir parte desse investimento de seus impostos.

Nazir corre para fechar algum financiamento até o final desse ano, pois senão perderá o prazo da aprovação. “Se não conseguir nenhuma verba, não sei o que vai acontecer. Ou eu desisto ou vou virar um Quixote. Vou ter que lutar inutilmente contra os moinhos de vento da música sertaneja”, brinca Nazir.