08 de julho de 2026

Borracheiro devolve notebook achado em margem da rodovia


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ENTREGA - Anildo Silva (à esq.), com os filhos Luiz e João

Sabe aquelas histórias com finais felizes que não têm outra explicação a não ser uma grande dose de sorte ou, para os mais crédulos, até a intervenção divina? Pois é, o professor de educação física Francisco Josimar Lopes dos Santos, 34, atribuiu a estes dois fatores o fato de ter recuperado praticamente intacto seu notebook com vários documentos pessoais, senhas de bancos, e-mails e projetos educacionais.

Francisco não foi vítima de roubo ou assalto. Ele deixou o computador em cima do capô do carro e saiu com o veículo. O notebook caiu na alça de acesso da Rodovia Cândido Portinari, próximo ao Vera Cruz, foi encontrado e devolvido sem nenhum programa ou arquivo danificado.

Morador no Jardim Cambuí, o professor dá aula todos os sábados no Projeto Brincando com a Bola, no Jardim Aeroporto 3. Por volta das 7 da manhã do dia 8 de outubro, saiu apressado de casa com todos os materiais que levaria para a aula (redes, bolas e jogos de camisas para as crianças), mais o notebook sob o braço. “Eu cheguei no carro com as mãos ocupadas e, com pressa, peguei e coloquei o notebook no capô do carro. Ajeitei as bolas, camisas e a rede, entrei no veículo e segui para o trabalho. Na hora, nem lembrei do notebook.”

Só por volta das 18 horas do mesmo dia, Francisco precisou do notebook. Pensou que tivesse sido roubado, mas queria acreditar que tinha esquecido o equipamento em algum lugar. Após dois dias de procura, Francisco teve um “flash” do que havia acontecido. Registrou, então, boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial para tentar preservar os documentos e dados pessoais que estavam no computador.

“Não tinha esperança de encontrar. Imagina, um computador cair de cima de um carro em movimento a quase 100 km/h na rodovia. Não havia chances de eu recuperar nada. Imaginei ele despedaçado e os vários carros que teriam passado por cima dele. Meu trabalho, meus documentos, meus projetos eu já tinha dado como perdidos. Fiquei arrasado, mas minha mãe me disse para ter fé que Deus ia fazer um milagre na minha vida. Não acreditei.”

O “milagre” apareceu com nome, sobrenome e vontade de deixar para os filhos o exemplo da honestidade. O borracheiro Anildo Ramos da Silva, 40, morador no Vera Cruz I, encontrou o notebook quando fazia sua caminhada habitual pela alça de acesso da rodovia. “Não sabia nem ligar. Mas, minha intenção era devolver desde o começo”, disse. Anildo e a mulher, a costureira de confecção Angelina da Silva, 37, têm dois filhos: João Victor, 6, e Luiz Eduardo, 8. A família que tem uma renda mensal de cerca de R$ 2 mil (valor do notebook) ainda não tem computador. Anildo lembra que quando as crianças acordaram e viram o aparelho ficaram encantadas. “Na hora que viram, eles adoraram. Pensaram que fosse presente. Mas, logo expliquei que não era nosso e que iria achar o dono”, disse o borracheiro.

O borracheiro conta que vários amigos tentaram convencê-lo a não devolver o equipamento. “Achado não é roubado, diziam pra mim. Mas, achado também não é comprado.”

Uma sobrinha de Anildo ligou o aparelho. “Ela ligou e disse que estava tudo desbloqueado. Vimos vários documentos, fotos e um currículo com endereço.”

Anildo procurou, então o professor para entregar o notebook. Na casa do professor, o borracheiro disse aos filhos: “Quando vocês encontrarem algo de alguém, meus filhos, vocês devem fazer como o pai está fazendo. Não devemos ficar com nada que não seja fruto da nossa luta, do nosso trabalho.”

Agradecido, o professor se ofereceu para dar aulas de futebol aos filhos de Anilton. “Fiquei muito comovido de ver que ainda existem pessoas honestas.”