08 de julho de 2026

Braços abertos


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Interessante como apesar das mudanças, muito permanece. Pelo menos em termos de cultura e sociedade. Uma coisa são os decretos e as leis que buscam normatizar o convívio social, outra, bem diferente, são os costumes, a força da história e a mentalidade que nos move e que realmente faz valer esse convívio.

A existência de imagens do Cristo Redentor em sete cidades da região, conforme registrado pelo Comércio em matéria publicada no domingo, 30/10, nos permite perceber essa dicotomia.

A colocação dessas estátuas remonta à sua congênere carioca, inaugurada há 80 anos no morro do Corcovado, um símbolo da cidade do Rio de Janeiro internacionalmente conhecido. A despeito do valor turístico atual, a simbologia que subjaz à imagem tem ligação estreita e direta com o mundo cristão, mais precisamente com o catolicismo.

Não seria de estranhar. Nascemos católicos e somos ainda hoje o maior país católico do mundo. Durante nosso passado colonial, e mesmo no Império, vivemos o regime do ‘padroado’. Em poucas palavras, podemos defini-lo como uma ligação sistêmica entre a coroa portuguesa e a Igreja de Roma. Ao rei português, e depois ao Imperador do Brasil, caberia o direito de conferir benefícios eclesiásticos. Escolher padres e bispos, construir e sustentar igrejas e arrecadar. A recíproca, porém, também foi verdadeira. A igreja, de certa forma, passou a interferir na administração. A inquisição, por exemplo, caracterizou-se mais como uma força policial do que religiosa.

Porém, com a proclamação da República, o Estado separou-se da Igreja. Tornou-se laico, determinando o princípio da liberdade religiosa, o que sempre foi confirmado por nossas outras constituições.

Mas uma coisa é o decreto, outra é sua aplicação, ou repercussão. Ninguém abandona rapidamente 388 anos de história e cultura. Nesse sentido, não apenas a Igreja reagiu, mas também as pessoas. Se não o fizeram de forma consciente, o demonstraram nas práticas cotidianas.

A imagem do Cristo, nesse caso, é uma remanescência dessa imbricação entre o administrativo e o religioso. Se o Estado agora é laico, não poderia ter crucifixos em repartições públicas, como acontece ainda hoje. Em paralelo, as Prefeituras também não poderiam erigir um Cristo em local público, muito menos pago com o dinheiro dos impostos. Isso poderia dar margem a críticas e demandas de outros credos religiosos, como aconteceu à época da construção do Cristo Redentor, sobretudo com os líderes da Igreja Batista.

Budistas, por exemplos, poderiam sugerir a colocação de um gordo e sorridente Buda ao lado do Cristo. Adeptos do Candomblé talvez preferissem Iemanja.

Interessante. Ao invés de retirar o Cristo, como determina a Constituição, o poder público poderia colocar estátuas de outros credos. Fica a questão para reflexão.