09 de julho de 2026

Violência e medo calam os moradores do Petrópolis


| Tempo de leitura: 3 min
SILÊNCIO - Crianças caminham nas ruas do City Petrópolis. Dois assassinatos, uma escola destruída e a invasão e depredação do Jardim Zoobotânico tiraram aparente tranquilidade do bairro

O City Petrópolis, na zona norte de Franca, raramente tem destaque no noticiário policial da cidade. Porém, dois assassinatos, a destruição parcial do Caic e a invasão e depredação do Jardim Zoobotânico, ocorridos nas últimas semanas, derrubaram essa máscara de tranquilidade do bairro que tem cerca de 20 mil habitantes. Com medo, os moradores não falam. O delegado responsável pela área, Hélder Rodrigues, tenta minimizar a situação dizendo que há problemas em toda a cidade. “A violência é itinerante. Hoje é o City Petrópolis, amanhã é outro bairro.” Fato é que o Comércio percorreu as ruas do City Petrópolis dois dias seguidos. Enquanto ouvia a população, homens de moto e gritos vindos do conjunto habitacional tentaram intimidar a equipe de reportagem.

Nas ruas, as pessoas falam pouco ou nada quando o assunto é criminalidade. A reportagem abordou cerca de 20 pessoas. Os poucos que aceitaram falar não quiseram revelar sua identidade por temer represálias de criminosos. Em quase todos os depoimentos, a palavra “medo” foi usada. Assim como a maioria dos moradores, os comerciantes também preferiram o silêncio. “Tenho um bom relacionamento com a população”, disse um deles.

O consumo e tráfico de drogas são apontados como o principal causador da violência. Uma dona de casa de 56 anos revelou que tem medo de ficar sozinha em sua residência. Disse ainda que frequentemente se depara com viciados fumando maconha no canteiro central da Avenida São Pedro. “Aqui perto tem muitos drogados. Eles vêm fumar à luz do dia e ninguém faz nada.” O relato foi confirmado por uma pespontadeira, 30. “É muita droga, as pracinhas principalmente não têm segurança nenhuma.”

Uma jovem de 21 anos, que trabalha como coladeira no bairro, disse que se mudou do City Petrópolis no ano passado por causa da violência. “Hoje eu moro no Santa Terezinha (...) Aqui (City Petrópolis) é um bairro que tem bastante violência, roubo, e para eu ficar ‘mais na minha’, preferi me mudar para não correr riscos.” Um bicicleteiro de 59 anos, que mora próximo à escola Caic, disse que nunca sofreu violência no local, mas é afetado indiretamente. “Mexe com o psicológico, porque você vê tudo acontecendo ao mesmo tempo. É perigoso, fica com medo. No meu caso, não tenho maldade com ninguém, mas é aquele negócio: você vê acontecendo com os outros e sente.”

No conjunto de prédios próximo ao Jardim Zoobotânico, o clima era mais tenso. No bloco B1, todos os moradores abordados se recusaram a falar. Uma jovem disse que lá o morador é “muito visado” e, por isso, ficaria calada. Em outro prédio, enquanto uma dona de casa de 52 anos conversava com a reportagem, gritos de “cagueta” - gíria que se refere a pessoas que denunciam crimes - ecoavam do prédio vizinho. “São poucas (as palavras), tem que saber o que fala. Tem que ficar surdo e mudo.” Durante a entrevista, jovens rondavam o carro da reportagem com motos. Outros observavam das janelas dos apartamentos. Todos com a intenção de intimidar os jornalistas.

Na paróquia São Crispim, o padre Sebastião Fábio Girolamo diz que evita reuniões na igreja após o anoitecer. “A preocupação é que realmente não haja um prolongamento à noite, justamente porque as pessoas têm que voltar para casa e as ruas nem sempre são muito seguras.”