08 de julho de 2026

A comida e outros prazeres


| Tempo de leitura: 3 min

Tenho comigo a sensação de que alguns passeios têm o momento oportuno para serem desfrutados. Para mim, com o D.O.M deve ser assim. Não só pelo preço proibitivo, mas porque, se é mesmo, o melhor restaurante do Brasil, deve ser desfrutado como acompanhamento de outros prazeres maiores: uma vitória, um aniversário de casamento, coisas do gênero. A última vez em que estivemos no famoso restaurante tínhamos nobreza e motivos de sobra para o esbanjamento...

Fomos comemorar a cura do afilhado do meu marido, o Pi. Ele recebeu um diagnóstico de câncer como se fosse de gripe, deu de ombros e a doença, sentindo-se ignorada e desprestigiada, de tão magoada foi-se embora sem deixar rastros. E, quando tivemos em São Paulo a confirmação de que ele estava de fato curado de algo que nem chegou a sofrer, decidimos que o D.O.M. seria o palco da nossa comemoração gastronômica.

Chegamos cedo, pra sair tarde e aproveitar. O menu confiance (modelo de jantar em que são servidos até 8 pratos à escolha do chef, para degustação) não dava, nem com um motivo daqueles! Então fomos de cardápio normal mesmo. Eu comi uma carne de caça cozida no próprio molho, deglaciada com vinho tinto, acompanhada de um risoto negro macio, aveludado, de uma cor vinho intensa (já tentamos de todas as formas finalizar nosso risoto com diversas gorduras diferentes, mas jamais conseguimos aquela intensidade de cor). O Luís comeu um peixe de água salgada.

Mas, a obscenidade ficou, naturalmente, por conta do Pi, deixa ele... Ele escolheu a raia na manteiga. Tive uma dó danada, porque é meu bicho preferido dos mares. Mas, lógico, experimentei, tava lá mesmo! Eu diria que a tal raia era feita de nuvem ou algo que o valha, um doce veneno. O Alex Atala (chef proprietário do D.O.M.) jura que a bichinha é fruto da sustentabilidade. Melhor assim, nem a consciência, nem o estômago da gente, pesam.

Tomamos um vinho ótimo, a noite estava realmente especial. Conversamos sobre a alegria da saúde e da comida e estávamos sentados bem ao lado da cozinha, ao lado do chef Atala. Dava para vê-lo trabalhar imerso no seu perfumado mundo vaporoso. Foi quando a família dele chegou. Os filhos, sem qualquer cerimônia foram logo cutucá-lo, abraçá-lo. A bela mulher, recostada no balcão preferiu desfrutar o prazer de vê-lo delicadamente em ação. Ficamos nós a observá-los, a esperar o momento do beijo romântico, do sorriso discreto.

Tudo parecia tão bem, nós e eles, que resolvi comer um doce, uma sobremesa: um raviole re-heado de doce de leite, que não estava maravilhoso como se pronunciara. Tudo bem, muito bem.

Nossa noite foi-se acabando, estávamos já meio altinhos e felizes o suficiente pra aceitar a conta. Fomos nos ajeitando para levantar, aí o Atala se aproximou de nós e se despediu com um elegante e carinhoso namastê (cumprimento do povo japonês).

Por um instante tive vontade de lhe contar o motivo de nosso jantar, mas acabei deixando passar. Pena, porque me pareceu que a minha notícia confirmaria o que ele já adivinhara.

Arte na cozinha com ovos

Como deixar sua salada mais criativa


Coloque um ovo cozido ainda quente em uma caixa de leite ou suco aberta. Pressione o ovo com um palito e amarre com uma borrachinha dos dois lados.

Deixe por 10 minutos na geladeira. Pronto: basta retirar o palito e cortar o ovo ao meio

 

 

 

 

 

 

A dica da semana
Em tempos de culinária moderna, parece inadequado mencionar grandes clássicos da culinária, mas, ironicamente, é em épocas de mudanças que o conhecimento do passado se torna mais urgente. Falar em técnicas tradicionais é quase o mesmo que falar em culinária francesa, que é repleta de carnes e de modos diferentes de cozimento. Talvez a mais famosa técnica francesa de cozimento de carne seja o “confit”, que rende um alimento macio e saboroso. É definido como método de cozimento e de conservação de carnes e consiste em cozinhar o alimento em sua própria gordura, e depois armazená-lo no líquido do cozimento, ou seja, na gordura. É simples, mas exige fogo brando e muita paciência. Pode-se ainda agregar outros tipos de gordura para agregar mais sabor, como, por exemplo, o confit de carne seca feito com gordura de porco.