A matéria publicada pelo Comércio no dia do sapateiro, terça-feira, 25/10, enseja uma reflexão interessante em torno da principal atividade econômica da cidade. Entrevistados pelo jornal, profissionais veteranos da indústria calçadista afirmaram ter orgulho da profissão, mas que não gostariam de ver nela o futuro de seus filhos. Por sua vez, os mais jovens dizem até gostar da profissão, mas que a encaram como transitória, um passo necessário para se chegar a um patamar mais alto na vida profissional.
Apesar de parecerem contraditórias à primeira vista, essas afirmações demonstram coerência e lucidez. Para os profissionais mais antigos, muitos deles vindos da zona rural, com pouco ou quase nenhum estudo, a profissão de sapateiro significou uma boa oportunidade de trabalho e alguma ascensão social. De certa forma, sentem-se orgulhosos com aquilo que conquistaram.
No entanto, sabem (ou sentem) que não há muito futuro na profissão. Como percebem um mundo mais aberto e flexível, com mais possibilidade de estudo e formação escolarizada, desejam para seus filhos uma profissão em setores que permitam o desenvolvimento de uma carreira, rendimentos mais elevados e um trabalho mais glamoroso.
Nada de errado. Ao contrário, bastante compreensível. Por ser um setor de mão-de-obra intensiva, a indústria calçadista francana ainda traz em seu funcionamento certas características do fordismo/taylorismo. As tarefas são repetitivas e bem definidas, com pouca utilização do capital intelectual, quase nenhuma flexibilidade e baixa mobilidade. Nesse sentido, não existe incentivo ao estudo, já que não há necessidade. Se não estudam, as pessoas não evoluem. Aos poucos, se acomodam e ficam anos repetindo os mesmos movimentos, como tão bem ironizou Charles Chaplin em seu famoso filme Tempos Modernos.
Dessa forma, não há como se motivar. Um trabalho como esse, em plena sociedade do conhecimento, só pode ser encarado como transitório por jovens que querem chegar mais longe. Se entram para a indústria do calçado, é por necessidade. Assim que podem, a deixam em busca de novas oportunidades.
Como Franca vem experimentando uma diversificação em sua economia, e o maior acesso à educação, em todos os seus níveis, tem melhorado a formação dos trabalhadores, é natural que surjam mais opções de trabalho para os jovens que a ele se dispõem.
Nesse sentido, a indústria calçadista vai aos poucos perdendo terreno. Como o próprio Comércio já divulgou em um passado recente, algumas fábricas já começam a enfrentar uma escassez de mão-de-obra. Trabalhadores que conseguem se estabelecer em outros setores da economia não têm demonstrado interesse em voltar para o setor calçadista, mesmo que haja uma paridade em termos salariais.
Talvez seja hora da indústria calçadista acordar para a importância dos recursos humanos. É bom que comece logo a treiná-los, motivá-los e desenvolvê-los.