Augusto Teruel é nascido e criado em Franca. Talvez pela proximidade, apresente um pouco de mineiro em sua alma. Aquele jeitão desconfiado, com feições carregadas no começo da prosa, as mesmas que logo se desfazem conforme a conversa vai ganhando ritmo e densidade.
Apesar de seus 74 anos, poucos o conhecem pelo nome. Seu apelido, no entanto, ainda repercute em vários cantos da cidade: “Nego do Jornal”. Por mais de 20 anos, Seu Nego trabalhou no Comércio da Franca desempenhando várias funções, mas as que lhe renderam mais alegria e histórias foram as de repórter policial informal e “arrecadador de foto dos mortos” para publicação no jornal. Ele se aposentou há mais de uma década, mas se tornou uma lenda e deixou saudades entre os colegas jornalistas.
Seu Nego começou a trabalhar desde cedo: foi dono de loja, taxista, repórter policial, motorista e o que mais fosse necessário. Se suas façanhas não foram unanimidade em sua época, hoje divertem a todos. Aqueles que porventura se chatearam um dia com as artimanhas do Nego, também se rendem à ingênua nostalgia daqueles tempos, e acabam sorrindo. As façanhas transformaram-se em “causos”, sobretudo quando contadas por ele mesmo com ênfases, interjeições e muxoxos precisos.
Segundo sua irmã, Aparecida Teruel, a Vó —como é mais conhecida lá pelos lados da Estação—, na infância, Seu Nego foi cliente assíduo do chinelo de sua mãe, mas de nada adiantou. “Certa vez eu até levei uns tapas por causa dele. Ele mexeu com um menino e o rapaz veio pra cima dele. Eu tentei ajudar e acabei apanhando também”, conta.
As molecagens de Seu Nego eram constantes, desde fugir da aula para nadar, como pegar cavalos sem autorização do dono para passear na cidade. Quando era pego em alguma dessas traquinagens, colocava em prática uma estratégia que acabou utilizando durante toda a sua vida: dava uma de bobo. “Para conseguir as coisas, ou você chega pisando duro e falando alto ou passa por bobo. Eu preferi a segunda opção.”
REPÓRTER NATO
No Comércio da Franca, seu talento logo foi reconhecido. Apesar de não ter estudado e não possuir um texto apurado, o espírito da reportagem corria-lhe pelas veias. “Um repórter nato”, como diz Joelma Ospedal, atual editora-chefe do Comércio. Sidnei Ribeiro, o Sidão, ex-editor-chefe do jornal e atualmente editor do Caderno Brasil, diverte-se ao lembrar de Seu Nego. “Ele era incrível para essas coisas de polícia. Adorava uma tragédia e tinha um faro incrível para lidar com crimes e notícias policiais. Se tivesse estudado, seria um dos grandes nomes do jornalismo investigativo.”
Para conseguir as informações que precisava, Seu Nego ia chegando devagar junto às pessoas do bairro, da vizinhança ou que estivessem próximas à cena ou local da tragédia. “Você tem que se mostrar um Zé Mané. Quando chega polícia, por exemplo, ninguém fala nada, ninguém sabe de nada. Mas se você não é ninguém, todo mundo entrega tudo”, lembra Seu Nego.
Uma vez teve que se esconder na casa de um delegado para escapar de alguns vereadores que, descontentes com uma notícia publicada no jornal, tentaram atacá-lo. Ele ainda se diverte com a lembrança desse dia. “O delegado, Dr. Moisés, saiu da casa gritando com os vereadores que a imprensa era livre.”
Mas o que de melhor Seu Nego sabia fazer, e para o qual não tinha concorrente, era conseguir as fotografias das pessoas que morriam e que iriam compor as manchetes do jornal no dia seguinte.
Em uma época em que as vendas de jornal eram diretamente proporcionais ao tamanho da tragédia estampada na capa, o trabalho de Seu Nego era fundamental. Conseguia não apenas as fotos das vítimas, como também as dos criminosos.
“Eu ia à casa do suspeito e dava um jeito de pegar a foto.” Questionado se não tinha medo, retruca mineiramente: “Quem mata num fica em casa, some na estrada”.
Tudo começou na Santa Casa de Franca, onde era taxista. Como não havia IML (Instituto Médico Legal) em Franca, todas as vítimas de crimes que aconteciam na cidade e região iam para aquele hospital. Quando alguém dava entrada, Seu Nego já preparava o “bote”. Colocava-se à disposição, ajudava a descer a maca da ambulância e a colocar a vítima para dentro. Conseguia, então, todas as informações: o que tinha acontecido, quem era o defunto, como e onde aconteceu o crime ou o acidente, em que bairro morava a vítima etc. Sabia que, além da foto, os jornalistas também precisariam do máximo possível de informações para escrever sobre o fato.
Em paralelo a essa conversa, já buscava o principal, a foto. Aproveitava um descuido do pessoal e já ia vasculhando as roupas do morto. Caso não conseguisse a foto naquele primeiro momento, Seu Nego tinha lá suas estratégias e artimanhas. Ou procurava pelo endereço do falecido, de acordo com as informações obtidas na conversa com o pessoal do hospital, ou se aproximava de algum conhecido ou parente da vítima que por ali estivesse ou se favorecia da “oportuna” namorada que havia arranjado na administração da Santa Casa. Mesmo correndo riscos, ela lhe “emprestava” os documentos antes de começar os trâmites burocráticos.
Independentemente da forma, o fato é que Seu Nego conseguia a foto. Com ela em mãos, corria para o jornal para que ela pudesse ser copiada. No jornal, para desenvolver bem seu trabalho e adiantar-se à concorrência, Seu Nego desenvolveu algumas técnicas. Ficou tão bom nisso que em alguns casos o Comércio conseguiu antecipar-se até mesmo à própria polícia. A matéria do jornal “amanhecia” antes do boletim de ocorrência.
FUNERÁRIAS
Uma das técnicas mais utilizadas, e também das mais eficazes, era passar-se por funcionário das funerárias. Como algumas famílias resistiam em passar a foto de seus familiares para o jornal, fossem vítimas ou criminosos, Seu Nego aproximou-se das funerárias. Ficou conhecido, fez amizades em todas e conseguiu jalecos, uniformes e bonés delas. Se precisasse conseguir uma foto, era só descobrir qual funerária estava prestando o serviço, vestir o uniforme e ir para o “trabalho”.
Essa aproximação com as funerárias rendeu-lhe outras facilidades. Quando o defunto não tinha documento, Seu Nego conseguia a chave da sala onde ficavam os mortos. Entrava na sala, puxava a urna e começava a preparar o defunto para a foto. Chegava a lavar o corpo, colocar folhas de papel sulfite no peito do morto para que simulassem uma camisa e abrir os olhos da vítima para o clique do fotógrafo.
A fama de Seu Nego correu a cidade de tal forma que, com o tempo, suas histórias foram ganhando ares de lenda, Como uma de que certo dia, ao bater à porta de uma casa para solicitar a foto da vítima, uma mulher começou a chorar ao reconhecê-lo, pois ainda não fora informada da morte de seu parente, que tinha acontecido apenas poucos minutos antes.
Hoje Seu Nego está aposentado. Passa as tardes na sorveteria da irmã e aproveita para curtir os cinco netos e dois bisnetos que seus filhos Wilson e Solange lhe deram. Mas não recusa uma boa prosa, afinal “causos” para contar não lhe faltam.