Meu interesse pela gastronomia, pela comida, por restaurantes e todo o universo que contém todas essas delícias não tem raízes naqueles que primeiro me alimentaram. Infelizmente, não tenho nenhuma história de avó fabulosa, quituteira... E minha mãe jamais se entendeu com as feias e poucas panelas que a vida lhe presenteou. Talvez por isso, quando me esforço para desembaraçar o já cumprido fio da minha memória gastronômica, eu ancore num frango ensopado moreno.
Fiquei entusiasmada quando descobri que haveria um jeito de minimizar aquela paleta de tons beges desmaiados dos frangos ensopados da minha infância. Meu pai reclamava sempre da brancura quase metálica das carnes dos infelizes frangos de granja. Foi quando, no meu trabalho, na loja Feira dos Calçados, minha amiga e cozinheira me disse que cebola e açúcar resolveriam o nosso pro-blema aviário. Parece e é simples, mas, pra mim, com 12 anos, era bem estranho.
E só é simples porque foi uma das maravilhosas descobertas da gastronomia. Tecnicamente tem nome: Elemento de Maiher, que é o caramelizado da cebola, que sequeima - e a cor escura é o resultado da queima do açúcar do alimento. O que minha amiga não sabia é que o açúcar em si poderia ser dispensado, ele só acelera o processo: mais sabor, mais cor.
Depois vieram as minhas minipizzas feitas para vender na cantina da minha escola. Foram bem aceitas, a dona da Cantina, Rita, dizia que faziam o maior sucesso -hoje, penso que isso poderia ser apenas um incentivo. Fui testando temperos até chegar à conclusão de que o melhor tempero para meu franguinho desfiado era o bacon. As pizzas madrugadeiras deveriam ser um verdadeiro tormento, afinal as fazia depois que chegava da escola, à noite. Mas, eram, na verdade, um momento de comunhão com minha mãe, que se levantava para me auxiliar. Minhas irmãs, numa sonolenta vigília, esperavam a expectativa dos restos daquele franguinho desfiado. Somente bem recentemente vim a saber o quanto elas amavam aquele frango! Fiquei satisfeita, mas confesso que não posso mais ver frango temperado com bacon...
Só mais tarde vieram os pratos mais finos, para os quais meu pa-ladar já estava preparado, fácil como rimar lé com cré. No meu caso, não houve preparação ne-nhuma, nem estudo, simplesmente o que caía na minha língua era imediatamente decomposto.
Todas as vezes que um sabor chama a minha atenção tenho um truque de respiração que faz com o alimento deixe de ser único, mas seja partido nas suas várias composições, para depois se unir novamente e combinar-se, descombinar-se, uma deliciosa brincadeira.
Jamais refuguei diante das novas possibilidades, a aventura de viver, diretamente ligada a aventura de comer... Comi e tenho envelhecido. Portanto, é natural que me volte com mais frequência na perseguição de minhas origens: pais, avós, meu país. Quero ir e vir com vocês muitas vezes.
PS: Não me apresentei ainda. Meu nome é Adriana Mendonça. Sou casada com o Luís Henrique, tenho uma filha, a Júlia, minha irmã mais nova mora comigo, a Lelê. Sou advogada e sócia-proprietária do Azul Culinária Brasileira e vou escrever sobre gastronomia aos domingos.
Sobremesas são sofridas: não é para quem procura romantismo na cozinha, é para quem se apaixona pela exatidão. Por isso fica difícil dar pequenas dicas neste assunto. Mas há uma opção fácil, bonita e bem saborosa (pelo menos eu adoro): sorvete de creme com calda de morango.
O sorvete é bem simples, basta comprar. A calda é fácil de fazer, mas para ser linda e brilhante precisa de alguma técnica.
Coloque em uma panela mais ou menos 350 ml de água para 6 colheres de sopa de açúcar cristal e mexa os dois até dissolver todo o açúcar. Só então leve ao fogo, e deixe ferver até que se veja nas bordas um tom dourado (mas, fique atenta, daí para queimar é só um pulinho!).
Jogue, então, 4 bandejas de morangos cortados ao meio. Não mexa até que o líquido esteja rosa, acrescente uma colher de chá de essência de baunilha. Pronto!