A doméstica de 45 anos denunciada na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) na última quinta-feira por deixar o filho de 9 anos acorrentado pelos pés em casa e sair para trabalhar, disse que está arrependida. “Meu coração ficou cortando de deixar ele aqui. Fui trabalhar pensando no que tinha feito, mas era para o bem dele, para ver se ele melhora, porque ele está me dando problema na escola. Bater eu não posso e trabalhar eu preciso. O que eu ia fazer? Mas eu me arrependi.”
A mulher relatou que constantemente funcionárias da escola ligavam relatando brigas dele. Na quarta-feira, após uma nova ligação em que a escola exigia que ela deveria buscá-lo com urgência, a mulher serviu o almoço dos patrões, foi à escola e pegou o filho. Como precisava voltar para o trabalho, aplicou o castigo da corrente pela primeira vez.
Na quinta-feira ela resolveu continuar com o castigo. “Não adiantava ele ir na escola, porque elas (funcionárias) iriam me ligar falando para ir até lá buscar. Achei melhor deixar ele em casa, acorrentado pelos pés e ir trabalhar”, disse a mãe. O que ela não esperava é que o filho fosse subir o portão e o telhado de uma loja em reforma em frente à residência. O fato foi denunciado ao Conselho Tutelar e foi parar na DDM (leia texto nesta página).
O filho, segundo a doméstica, começou a “dar trabalho” quando entrou na escola. O menino admitiu que não tem muita paciência com os colegas de escolas. “Qualquer xingamento, tapa ou chute, eu não aguento, eu me estresso, e já perco a paciência, vou pra cima. Não penso nem duas vezes e já bato.” Ele disse que o comportamento se deve ao preconceito que sofre na escola por ser pobre e já ter catado papelão.
VIDA DE SACRIFÍCIOS
Mãe e filho estão em Franca há sete anos - eles moravam em Ibiraci (MG). A mudança ocorreu depois que o pai do garoto, que é de Restinga, foi embora. Eles moram de aluguel no mesmo endereço do Centro desde que chegaram a Franca, mas poderão ser despejados no final do ano se não conseguirem uma nova moradia.
A doméstica ganha R$ 600 por mês. Deste total, R$ 150 são gastos com o aluguel. A doméstica tem apenas uma sobrinha em Franca, mas não se falam. “O resto (da família) mora na roça, mas nunca me visitaram. Tenho que me virar sozinha”, desabafou a mãe.
Para ajudar na educação do menino, ela procurou o Conselho Tutelar há cerca de dois anos e conseguiu atendimento psicológico. “Ela (psicóloga) diz que esta revolta se deve ao fato dele ser carente e precisar de atenção”, lembrou a mulher, o tempo todo abraçada pelo filho, em uma demonstração de afeto mútuo.