O dia 25 amanheceu e tudo parecia normal. Dia agitado, muitos prazos a cumprir até que um telefonema informou sobre o passamento do Dr. Odorico Antônio Silva. Não acreditei. Imediatamente passei a contatos com pessoas que lhe estavam mais próximas. A notícia se confirmou.
O Dr. Odorico era uma das pessoas mais marcantes que conheci. Com ele tive a honra de trabalhar e aprender lições de direito e de vida; a arte de fazer petições caprichosamente elaboradas em uma ou, no máximo, duas páginas, pois, capacidade de síntese, era com ele. Ninguém dominava essa técnica tão bem.
Foi profissional entusiasmado com a vida e a advocacia;. Inicia sua jornada ainda de madrugada. Quando, por volta de 7:30 horas, seus companheiros chegavam e o cumprimentavam com um “bom dia”, podia-se esperar: “bom dia não; boa tarde, já passou da hora do almoço”. Ainda posso ouvir sua gargalhada, após a provocação.
Era turrão, mas também pudera... Conhecia como ninguém o direito do trabalho e o direito processual do trabalho. Seu raciocínio era rápido. Inteligentíssimo e capaz de envolver e convencer. Desarmava qualquer um, facilmente, com suas tiradas engraçadas e pertinentes. Era, ao mesmo tempo, puro de alma e de coração. Quem bem o conheceu sabe do que eu falo.
Generoso, seu desapego material foi traço marcante de sua vida e carreira. Para ele, importava era fazer justiça, e isso, sempre se podia ouvi-lo dizer. Dinheiro era consequência natural de um bom trabalho. Foi sempre fiel às suas convicções, mesmo que isso lhe custasse muito, a Francana e o Corinthians a exemplo.
Ao partir, Dr. Odorico homenageou o sindicato dos sapateiros e a categoria à qual serviu durante toda a vida: morreu no Dia do Sapateiro! Nada é por acaso. Foi um pai amoroso com seus filhos e esposa, a quem só se referia como “Donana”. Sinto-me órfã. Foi ele quem me apresentou os ambientes forenses e me ensinou a prática da advocacia trabalhista. Apresentou-me a muitas autoridades locais. Fez isso também por outros muitos outros jovens que, com ele, tiveram a oportunidade de conviver. Destes seus “discípulos”, nunca cobrou nada, a não ser, retidão de caráter.
Se ele pudesse retrucar o que coloco neste texto, sei que debocharia com algo mais ou menos assim: “É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs/ Eu já devolvi as chaves da minha porta/ E desisto de qualquer direito à minha casa/
Fomos vizinhos durante muito tempo/ E recebi mais do que pude dar/ Agora vai raiando o dia/ E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro/ Apagou-se/ Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada / Não indaguem sobre o que levo comigo/ Sigo de mãos vazias e o coração confiante.’ (Rabindranath Tagore)
As lições que deixou são eternas e não podem ser encontradas em páginas de livros. Sinto-me privilegiada pela oportunidade de havermos convivido e pela oportunidade de, com ele, ter aprendido tanto.
Maria Cláudia S. Lima Oliveira
Advogada