Há algumas semanas, vivenciamos significativas experiências políticas em nossa cidade, o que fortalece nossa democracia. Em uma delas, o protesto convocado para combater o projeto que aumentava o salário dos vereadores fracassou. A despeito de qualquer influência que esse protesto pudesse ter sobre os vereadores, o aumento acabou sendo aprovado. Um deles, inclusive, ridicularizou a principal organizadora do protesto, ironizando sua iniciativa e sua capacidade de liderança.
Na outra, porém, o cenário foi bastante distinto. Influenciados pela repercussão do aumento de salários, algumas pessoas resolveram protestar. Seja porque estavam inconformadas ou por pertencerem a grupos organizados, lotaram o plenário e exerceram seu poder de pressão. Como resultado, houve uma inesperada unanimidade em relação ao aumento do número de vagas para a próxima legislatura. Todos os vereadores foram contrários ao projeto.
Como consequência, a leitura dos fatos parece ter obedecido a uma lógica cartesiana linear. Plenário vazio, vitória dos vereadores. Plenário cheio, vitória da população. Uma leitura simplista, é verdade, mas que repercutiu bastante, criando aquele movimento inercial que acompanha os processos mais polêmicos e os faz durar um bom tempo na memória das pessoas.
Nesse sentido, a matéria publicada pelo Comércio na sexta-feira, 21/10, parece bastante significativa: mais dois protestos marcaram a Câmara Municipal na semana passada. O primeiro levou ao plenário os panfleteiros da cidade. Liderados pelas empresas em que trabalham, eles compareceram em massa. O objetivo era pressionar os vereadores a aprovarem um projeto de lei que amenizaria as multas em caso de panfletagem irregular. O segundo levou os professores. Em número bastante significativo, eles pressionaram para que fossem aprovadas as alterações em artigos da Lei Orgânica Municipal sobre a área da educação.
O fato interessante nesses episódios é que, a despeito de se concordar ou não com qualquer uma dessas classes de trabalhadores, parece que as pessoas estão começando a acordar para os deveres que lhes cabem em um regime democrático.
É assim que se vive em democracia. Como a sociedade se divide em grupos de interesses, é preciso que cada um se disponha a lutar por seus direitos, claro que dentro dos limites da ordem e da civilidade. Não adianta sonharmos com uma entidade romantizada que denominamos de ‘povo’. Ele existe apenas como abstração sociológica. Na realidade cotidiana dessa complexa sociedade em que vivemos, ele é multifacetado, dividido em interesses que nem sempre são compartilhados por todos os cidadãos.
Se estivermos mais atentos a essa realidade, com certeza nos tornaremos cidadãos mais comprometidos com nosso próprio destino, como também com o de nossa cidade. Afinal, somos todos políticos. Cidadãos da ‘polis’, como nos ensinaram os gregos.