08 de julho de 2026

Legal é ser educado


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Semana passada estive numa escola da rede pública, a ‘Luís Páride Sinelli’, que tem em sua direção Maria Aparecida Nascimento e atende à clientela do Jardim Martins. É uma escola grande, com classes nos três períodos. Representando o GCN, visitei nove salas, no período da tarde. De manhã e à noite o grupo foi representado por Lidiane Xavier e Douglas Hernandes. Auxiliamos na entrega de diplomas de reconhecimento às classes que conquistaram com seu comportamento a distinção. Que comportamento? Vou explicar.

Há meses Maurilo Casemiro Filho, diretor da Resolve Soluções, consultoria de responsabilidade social, mobilização e articulação comunitária e políticas públicas, também o criador do Instituto Pró-Criança que dirigiu por quinze anos, idealizou um projeto que em sua essência se resumia a despertar estudantes da rede pública para noções básicas de polidez. As chamadas palavras mágicas, que abrem portas e caminhos, e que todos os pais deveriam ensinar aos filhos desde que estes começam a nomear o mundo à sua volta, parecem andar em desuso: por favor, com licença, obrigado, desculpe. Maurilo teve a percepção de que resgatá-las no contexto escolar poderia trazer em seu bojo outras mudanças, em um universo onde rudeza e grosseria, quando não violência, campeiam de forma assustadora. Contando com o Rotary Sul, na pessoa de João Paulo de Macedo Brandão Júnior, Tenente-Coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo, com a Delegacia de Ensino, a direção e o corpo docente da escola que aceitou o desafio, o projeto ‘Legal é ser educado’ passou a ser desenvolvido com sensibilidade mas firmeza.

Professores, coordenadores e diretora, acreditando na proposta, uniram-se para desenvolver estratégias que mostrassem às crianças e adolescentes o valor, o peso e a consequência das palavras. Cada classe tinha três representantes que atuavam como mediadores entre a turma e os educadores. Aos poucos, de forma homeopática, mas de maneira constante, as frases foram internalizadas. Pelo que pude notar na entrega dos certificados de reconhecimento de novos comportamentos, os alunos assimilaram com as pequenas frases noções de respeito ao outro, de necessidade de aceitar as diferenças, de consciência de que bons modos geram bons modos. Ou, no dizer daquela figura mítica que viveu nos anos 80 no Rio de Janeiro, o Profeta, ‘gentileza gera gentileza’.

No convite impresso feito aos alunos, no início do ano, a sensibilização foi pensada de forma a fazer com que a decisão de mudar antigos hábitos ou adquirir novos passasse pelo crivo pessoal: ‘ Vou dirigir-me aos colegas e professores com palavras educadas como por favor, com licença, obrigado, desculpe. Colegas e professores perceberão que este é o meu jeito de pensar e de me comportar, não concordando com quem se comporta de maneira não educada’. Esta era apenas a primeira das doze propostas. As outras envolviam atitudes como respeitar pertences dos outros, aguardar o momento de falar, escutar o outro com atenção, relacionar-se de forma pacífica com colegas e professores, evitar gritos como meio de chamar a atenção, manter limpa e em ordem a sala, cuidar da higiene pessoal. Noções básicas de civilidade, sem as quais as relações podem beirar a selvageria.

É claro que para obter os bons resultados que pude atestar, houve um grande envolvimento de todos os parceiros, que se pautaram pelo exemplo, pela inspiração e mobilização, pelo otimismo em relação à capacidade do ser humano de mudar para melhor. E, evidentemente, pela fé na força da palavra. ‘Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma’, disse Fernando Pessoa. Enxergando nas fórmulas de polidez uma oportunidade de vivenciar noções fundamentais de civilidade, os idealizadores do projeto ‘Legal é ser educado’ criaram um jeito novo de estabelecer regras de convívio saudável e harmonioso, condição imprescindível para que a aquisição do conhecimento faça sentido nas vidas de cada um. Sem isso, haverá apenas informação.

Sônia Machiavelli
Jornalista e professora