A Líbia está em festa. Talvez não totalmente, mas com certeza na maior parte do seu território. Ao redor do mundo, líbios e não líbios comemoram a queda do ditador, irmanados em um sentimento de que o mundo está ficando melhor. Cientistas políticos e líderes internacionais destacam o momento histórico para a Líbia. Apesar de saberem das dificuldades que virão, destacam o fortalecimento da democracia.
A imagem de kadafi ensanguentado, que desde ontem corre por toda a mídia mundial, parece vingar quatro décadas de opressão, suscitando uma sensação de alívio não apenas nos líbios, mas em todos aqueles que prezam a democracia, a paz mundial e os direitos humanos.
Mesmo que não seja recomendável deleitar-se com a morte de um ser humano, como frisou a presidente Dilma Rousseff, é impossível negar o sentimento de ‘já vai tarde’ que perpassa boa parte da população mundial.
Depois de 42 anos de um governo extremamente autoritário e corrupto, responsável pela morte, tortura e perseguição de milhares de pessoas, e de uma sangrenta resistência, que ceifou a vida de tantos outros líbios, essa reação não deveria surpreender a ninguém.
O entusiasmo que tomou conta do povo líbio não difere em nada daquelas reações que permearam outras revoltas do movimento que se convencionou chamar de ‘primavera árabe’. Sua origem é comum. De forma geral, essas populações foram aos poucos se cansando de tantos desmandos. Mais expostas ao mundo democrático em função das modernas tecnologias de comunicação, que diminuem as fronteiras e aproximam os homens, elas perceberam o anacronismo político e econômico de seus países. Além disso, acordaram para o fato de que, na longa duração, todo regime ditatorial acaba confundindo as fronteiras entre as finanças do Estado e os bolsos familiares dos ditadores de plantão, que tornam-se cada vez mais opacas e pouco precisas.
Porém, como em todo o final de festa, há que se arrumar a casa. E como costuma acontecer nesses casos, a sujeira é sempre bastante significativa. Se para quem está assistindo de longe essa tarefa parece fácil, em função da confraternização que se percebe entre o povo e as forças rebeldes, para quem conhece o contexto mais de perto a tarefa não é tão simples assim.
As forças que derrubaram o ditador se uniram apenas em função de um inimigo odiado e comum. Não comungam o mesmo ideal, não têm os mesmos planos, nem professam as mesmas crenças.
Ninguém sabe ao certo que forças emergirão desse aglomerado de grupos com características e objetivos tão diferentes. Poderá surgir um governo pró-ocidental, mais afeito aos ideais democráticos. Mas poderá emergir também um governo fundamentalista, mais afeito à radicalidade dos extremistas islâmicos.
Só o tempo dirá.