10 de julho de 2026

Os desafios de quem precisa vencer os entraves da timidez


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As mãos suam, as bochechas ficam vermelhas, a voz engasga e o coração palpita. Essas características, que poderiam descrever um adolescente apaixonado, servem muito bem para falar de um outro perfil, o do tímido ante uma situação inesperada, como a apresentação de um seminário na faculdade. Mas esse, ao contrário do primeiro, não perde os “sintomas” conforme o tempo passa e a segurança do convívio cresce. O tímido, salva exceções de tratamento com terapia e de aulas como as de expressão corporal e teatro, por exemplo, é tímido para sempre.

A vendedora Amanda Peres Araújo, de 26 anos, já sofreu muito com a timidez, mas garante que os sintomas amenizaram nos últimos anos. “Na adolescência não teria aceitado nem dar a entrevista. Tinha verdadeiro pânico de falar com pessoas que eu não conhecia.”, explica. A cura veio da paciência das amigas que a acompanham desde a infância em integra-la ao convívio social, de inúmeras sessões de terapia e da persistência dela em não se prender apenas ao seu universo íntimo. “Desde criança luto contra a timidez fazendo aulas de balé, inglês e natação. Sair todos os dias de casa para enfrentar um mundo que me causava medo era uma luta interna muito grande”, afirma.

Mas lutar contra esse instinto de preservação da própria imagem valeu a pena. Hoje ela trabalha com vendas e lida direto com o público diariamente. Nada parecido com o que ela enfrentava e outros tímidos enfrentam por aí. O estudante de gastronomia Matheus André Sanchéz, 28, ao contrário de Amanda, ainda é um tímido convicto e só aceitou falar sobre o seu problema por telefone. “Pessoalmente não tenho coragem”, explicou.

Matheus conta que tem poucos amigos e que não gosta muito de sair de casa. Balada não faz parte do seu cotidiano e até a escolha da profissão levou em conta o perfil recatado que o acompanha desde sempre. “Na cozinha do restaurante não vou precisar ficar conversando com ninguém e nem arrumar assunto para puxar. Lá serão meus ajudantes e os garçons apenas”, diz.

O estudante nunca fez nenhum tratamento específico para se livrar da timidez, pois acredita que ela faz parte da sua personalidade, mas, apesar disso admite que ela já atrapalhou sua vida pessoal e profissional. Matheus nunca conseguiu participar de uma dinâmica de grupo e o mais perto que chegou de uma foi em uma entrevista do emprego com uma psicóloga, há alguns anos. Ela diagnosticou a característica tímida do candidato, mas viu também o talento que deu a ele a vaga no escritório de uma transportadora. “O meu trabalho é interno, burocrático e meu maior contato é com papéis”, diz.

Foi também nesse ambiente que ele conheceu a namorada. “Primeiro o contato foi profissional, depois fomos pegando amizade e conversávamos muito. Um dia saímos e ela me beijou. Acho que se ela não tivesse feito isso, jamais teria acontecido. Minha timidez não ia deixar”, disse.

TÍMIDO, NÃO DOENTE

Segundo a psicóloga Márcia Ricci, timidez não é uma doença ou transtorno mental, mas pode vir acompanhados de algumas alterações fisiológicas que merecem atenção, como aceleração da respiração e dos batimentos cardíacos. “Pode ser um traço da personalidade, característica do temperamento, ou um padrão de comportamento caracterizado pela inibição em certas situações”, explica.

Mas vencer a barreira entre o eu interior e a sociedade é algo essencial, já que a comunicação é a palavra de ordem no século XXI. É dela que depende o emprego em uma dinâmica de grupo, a nota da chamada oral e até o beijo na balada, que geralmente acontece após muito xaveco.
Os tímidos, principalmente na infância, também são alvos de piadas e até de bullying. A maioria dos extrovertidos não entende muito bem a introspeção dos mais fechados, que sempre preferem assistir de longe o convívio social dos colegas.

A característica recatada dos tímidos pode ser conferida também no estereótipo deles. Dificilmente uma pessoa tímida vai estar vestida de forma ousada ou muito chamativa. Mas se engana quem não vê pontos positivos na personalidade deles. O fato de pensar bastante sobre o assunto antes de abrir provavelmente os livra de falar qualquer besteira. Outro ponto a favor deles é serem ótimos ouvintes, já que preferem ouvir a falar.