Nasce, cresce, pouco estuda e vai trabalhar como sapateiro. O destino comum a muitos francanos por décadas ainda é realidade. E quem é essa gente? Um mapeamento da cadeia produtiva coureiro-calçadista feito por encomenda do Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca) mostra que são pessoas com, no máximo, o ensino fundamental completo em sua maioria; que atuam em 90% dos casos diretamente na produção das fábricas, durante oito horas por dia. São homens e mulheres que, mesmo atuando em um setor com piso salarial de R$ 671, mostram orgulho pelo ofício, mas, por outro lado, não querem ver os filhos seguindo seus passos profissionais.
O sobrenome “terra do calçado”, que adjetiva Franca desde meados do século 20, continua vigorando, respaldado pelos números atuais do setor calçadista. Em que pese a diversificação da economia na cidade, que abriu novas oportunidades de emprego, o polo de Franca ainda abriga o maior parque fabricante de calçados masculinos do País. A cidade fechou agosto com 27.857 funcionários nessa área. Neste Dia do Sapateiro, comemorado hoje, não é difícil encontrar entre esses trabalhadores no chão de fábrica, aqueles que se mostram orgulhosos pela profissão, mas que, ainda assim, não desejem o mesmo destino para os filhos.
Aos 68 anos, Domingos Garcia Garcia há 45 anos é sapateiro. Ele representa o perfil padrão da classe. Com pouco estudo e trabalhando como espianador, elogia o ofício, mas não quis fazer dele uma tradição familiar. “Nunca incentivei os filhos. Gosto de trabalhar, mas o salário é pouco.”
Os irmãos Roney e Claudinei Batista de Paula, de 46 e 42 anos, respectivamente, também ajudam a engrossar as estatísticas que dizem que 52,65% dos sapateiros têm no máximo o ensino fundamental completo. Quase 30 anos atrás, “era o que tinha para fazer”, segundo eles. Roney, hoje blaqueador, começou aos 17 na profissão, estudou apenas até o terceiro ano do ensino fundamental e aprendeu tudo na prática. Morador no Jardim Esmeralda, conta que nunca quis ver os três filhos nessa lida. “Eles trabalham em lojas. (Ser sapateiro) é muito cansativo, não os incentivei, não.” Pai de quatro filhos, o manchador Claudinei se tornou íntimo dos calçados antes de colocar as mãos em qualquer diploma. Ele diz que os dois filhos mais velhos seguiram a profissão, mas quer evitar que os mais novos, de 7 meses e 10 anos, tenham o mesmo destino. Quer um “futuro melhor”.
PERDA DO GLAMOUR
Para o presidente do Sindifranca, José Carlos Brigagão do Couto, a ampliação de oportunidades de trabalho em outros segmentos do mercado ajuda a explicar esse sentimento em relação ao ofício. Mas ele acredita que é possível reverter isso. “Precisamos adotar mudanças na política de recursos humanos para que a profissão atraia o trabalhador. Cabe aos empresários de Franca, que são ex-trabalhadores da indústria, reconhecer esse valor e prestigiar essa classe que é a força motriz da indústria”, disse Brigagão, acrescentando que providências já estão sendo tomadas para valorizar a classe. “Estamos dando seguro de vida (...), recomposição salarial para ter um aumento real. Também temos que formar e reciclar o empresário calçadista para que haja uma conscientização da missão.” Segundo Brigagão, um planejamento estratégico será lançado em novembro com as metas para os próximos três anos.
O shoemaker (sapateiro) Zdenek Pracuch, que é consultor da indústria calçadista há décadas, afirma que a escassez da mão de obra é uma realidade. Para ele, a geração atual tem outras aspirações, não quer se dedicar ao emprego braçal. Segundo ele, a principal diferença é que antigamente os operários vinham da zona rural, sem nenhuma escolaridade, e a profissão de sapateiro permitia uma ascensão social. “Eles se ‘casavam’ com emprego.”
Para o gerente geral de uma das fábricas de calçados da cidade, uma das explicações para o desejo de quebrar a hereditariedade da profissão está na industrialização dos processos e na consequente desglamourização da profissão. Para Maurício Domingos Benedito, 42 - que acumula 30 anos de vivência na área -, antigamente o sapateiro era mais valorizado financeira e moralmente. “Talvez a função fosse mais respeitada porque era um trabalho mais artesanal, mais manual. Com a evolução do maquinário e as mudanças no processo de produção, a mão de obra parece ter ficado ‘esquecida’. O maquinário substituiu muito a mão humana.”