16 de março de 2026

O profeta


| Tempo de leitura: 6 min
Até onde minha percepção alcança, o mundo não acabou na sexta-feira nem o arcanjo Gabriel foi visto em parte alguma. Azar de Harold Camping.

‘As convicções são cárceres. Mais inimigas
da verdade do que as próprias mentiras’
Friedrich Nietzsche
, filósofo alemão


Harold Camping é um carismático velhinho que, aos 90 anos, dedica-se com afinco a uma atividade que, para nossa sorte, tem se mostrado um retumbante fracasso: prever o fim do mundo. Líder da Family Radio, rede evangélica de comunicação que controla três emissoras de TV e mais de 150 rádios AM e FM nos Estados Unidos, Camping lançou nas últimas décadas diversas previsões para o juízo final. Obviamente, errou todas.

A primeira data havia sido fixada por ele no livro ‘1994?’, grafado assim mesmo, com interrogação. A obra, publicada dois anos antes, apontava setembro de 1994 como a data em que Jesus Cristo retornaria à Terra para separar os bons dos maus. Diante do fracasso de sua previsão, Camping admitiu apenas um erro de interpretação. Segundo ele, em setembro de 94 houve o ‘julgamento celestial’ de sete igrejas e que, portanto, sua previsão deveria ser apenas ‘ajustada’.

Dez anos se passaram até que Harold Camping anunciasse a seus seguidores, em meados da última década, a nova data do fim dos tempos. Camping usou complexos cálculos baseados em datas ou números retirados dos Evangelhos para estabelecer o dia 21 de maio de 2011 como o momento do juízo final. Fizeram parte da equação a páscoa hebraica, o data da morte de Cristo, o número de dias em um ano e muitas outras variáveis.

A conta era tão audaciosamente precisa que fixava até mesmo o horário para início do juízo final, como se o julgamento da humanidade fosse uma final de campeonato com transmissão por satélite. Se o raciocínio estivesse certo, o Apocalipse deveria começar às 18h (pelo fuso da Nova Zelândia) do tal 21 de maio. Como Jesus não deu o ar da graça na data e horário previsto, Camping correu para ajustar seu relógio diante de centenas de fiéis que, atônitos, se surpreendiam com o fato do mundo continuar exatamente o mesmo. Disse o profeta que o certo era a meia-noite, horário de Jerusálem. Errou de novo.

Diante de mais uma falha, saiu-se com outra desculpa baseada na ‘interpretação espiritual’. Segundo o líder da Family Radio, o julgamento final aconteceu, comandado por Deus na data e horário previstos, e apenas 200 milhões de almas foram salvas. Camping garantiu aos seus seguidores que o joio já estava separado do trigo e que as trombetas do Apocalipse soariam cinco meses depois, em 21 de outubro de 2011, quando Deus viria executar sua sentença, salvar a minoria e, simultaneamente, destruir não apenas a humanidade ou o planeta Terra. A fúria seria tamanha que Deus simplesmente explodiria todo o Universo. O consolo é que, nas palavras de Harold Camping, o fim, apesar de ser sob fogo, seria rápido.

Se eu não estiver completamente louco, 21 de outubro foi esta última sexta-feira. E, até onde minha percepção alcança, o mundo continua o mesmo de sempre. Ninguém ouviu trombeta em parte alguma, o arcanjo Gabriel não concedeu entrevista para nenhuma rede de TV e o universo continua se expandido como faz desde o Big Bang.

Por mais rídiculas que sejam as previsões de Harold Camping, é bom ressaltar que o homem não é um idiota. Graduado em engenharia civil e bacharel em ciências, construiu um império de mídia baseado em suas pregações evangélicas. Conservador, defende uma interpretação estrita da Bíblia, com a ajuda de números e equações para ‘compreender’ os desígnios de Deus. Ele realmente acredita nos Evangelhos como um texto literal.

É bastante provável que este seja o grande erro de Camping. Tratar a Bíblia, um livro altamente metafórico e impreciso, como se fosse estatuto de empresa ou convenção de condomínio. Camping junta-se neste ponto a muitos outros líderes religiosos que defendem, para seus rebanhos, a intepretação factual e estrita de textos sagrados. Partem da premissa de que os textos foram escritos sob inspiração divina e, portanto, expressam literalmente a vontade de Deus.

A premissa não é exclusiva de Camping nem de algumas denominações evangélicas. Muitos outros líderes de distintas religiões pregam o mesmo. Às vezes, com consequências bem mais dramáticas do que o ridículo a que Harold Camping se submeteu.

Nos países muçulmanos, dá-se o nome de Sharia à intepretação literal do Alcorão, o texto sagrado dos seguidores de Alá, em boa parte parecida com a Bíblia católica. É bom lembrar que ambos bebem na mesma fonte - o Antigo Testamento e os pensamentos de Confúcio - e, portanto, as coincidências são invitáveis. Sob a Sharia, adúlteras são apedrejadas, ladrões acabam mutilados, homossexuais são executados, mulheres são impedidas de estudar. Sempre, é claro, em nome de Deus.

Entre os cristãos e judeus, a separação moderna entre religião e Estado impede excessos como o que hoje vemos no mundo árabe, mas ainda é significativo o número de líderes religiosos que defendem uma interpretação radical dos textos sagrados. É um erro. Diferente do pensamento generalizado, a Bíblia não é apenas um livro de bons exemplos. O que não faltam são passagens que exortam situações compreensíveis no contexto histórico de quando foram escritas, mas absolutamente condenáveis num mundo que se pretende, ao menos em parte, civilizado.

Há trechos na Bíblia que exortam o abuso sexual (Gênesis 16, 1-9); o incesto e a misoginia (Gênesis 19, 7-9; 19, 31-38); a poligamia (Gênesis 29, 21 a 30,34). Há inúmeras passagens em que se defende a escravidão (Êxodo 21, 1-7; 22, 3), a mais curiosa delas, certamente (Êxodo 22, 20-21), quando sustenta a tese de que matar um servo não é crime desde que ele demore mais de um dia para morrer. Não faltam também passagens em que há incitação ao ódio ou genocídio (Números 31, 1-12; Números 31, 14-19; Deuteronômio 20, 10-20). Há ainda regras morais obsoletas (não trabalhar aos sábados, não comer carne de porco, não cortar o cabelo, não usar roupas de tecidos diferentes) e muitas outras passagens sem qualquer sentido hoje.

É claro que todos estas contradições são irrelevantes diante da força - e da beleza - do texto, que deve ser entendido de forma figurada, metafórica. É uma mensagem que deve tocar o espírito do indivíduo e servir de guia para suas ações quando devidamente interpretada - e relativizada. Seguir as escrituras como se fossem um manual de conduta é caminho perigoso que pode resultar em ódio, guerra, intolerância, violência. Nada mais distante de Deus.

Que o diga Harold Camping, absolutamente frustrado pelo fato de continuar vivo depois de certificar-se de que o mundo deveria ter acabado na última sexta-feira. Depois de gastar a nada módica quantia de R$ 180 milhões em propagandas sobre o fim do mundo e de levar milhares de pessoas a aceditar em seus prognósticos, não é de admirar que ele esteja sem palavras. Vai ser difícil encontrar, desta vez, uma explicação qualquer para seu rebanho. Graças a Deus. Amém.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br