Não dá para contestar a força das imagens. Na sociedade atual, se não valem por mil, com certeza superam em muito as palavras. Sua capacidade de síntese e poder de impacto ampliam as possibilidades de interpretação, o que nos permite fugir ao imperativo da razão. Talvez, por isso mesmo, tornem-se imprevisíveis.
José Alves de Castro, 78 anos, mais conhecido como Zé Mineiro, que o diga. Apesar de toda uma vida dedicada ao setor calçadista, nunca pensou que sua imagem se transformaria no símbolo dessa indústria e de seus colaboradores, os “sapateiros”. Mas foi o que aconteceu.
A ideia era simples: aproveitar uma nova tecnologia para incrementar as embalagens que envolviam os sapatos de sua fábrica. Baseado nas caixas estilizadas da Zebu, produtora de botinas, Zé Mineiro, seus filhos e o amigo Antônio Roberto de Andrade, pessoa do ramo da cartonagem, mais conhecido no mercado como Beto, resolveram criar a imagem de um sapateiro trabalhando em uma oficina rudimentar, evocando os tempos antigos.
Beto montou o cenário e se responsabilizou pela fotografia. A escolha do modelo foi unânime. Em total simbiose com a profissão, Zé Mineiro emprestou sua imagem, seu conhecimento e sua simplicidade. Com olhar sereno e concentrado, característico de um trabalhador artesanal e solitário, emprestou a alma do sapateiro que sempre foi, insinuando movimentos que mesmo na imobilidade da foto deixavam entrever a arte e a beleza da profissão.
Na verdade, bastou a Zé Mineiro relembrar como trabalhava nos primeiros tempos. Nascido em Delfinópolis, aos 8 anos de idade entrou pela primeira vez em uma sapataria. Quando veio para Franca aos 15 anos, acompanhando a mãe viúva e seus dois irmãos, não teve dificuldade em empregar-se na área, passando pelas principais fábricas de calçados da época, Calçados Terra e Palermo, entre outras.
Já casado, porém, precisou melhorar os rendimentos. A saída foi arriscar-se em um empreendimento próprio. Em 1956, montou uma sapataria na Rua Ouvidor Freire. Para capitalizar-se, consertava sapatos de dia e fabricava botinas à noite. Com o passar do tempo, o número de clientes satisfeitos com os produtos e presos à prosa fácil de Zé Mineiro foi aumentando. Mas o “sapateiro” não parou por aí. Com a experiência adquirida nas grandes empresas, resolveu partir para a produção de mocassim, um produto de maior valor agregado. A estratégia deu certo. A Jota Pe de Zé Mineiro prosperou, chegou à produção de 120 pares por dia e por ali ficou, uma estratégia “teimosa”, que lhe custou outro apelido: Zé 120 (leia mais ao lado).
Essa vitoriosa trajetória, porém, não se fez apenas de alegria. Em um incêndio acidental, em 1988, ele perdeu quase tudo que tinha. No entanto, ajudado pelos amigos, recuperou-se rapidamente. Quando já estava bem estabelecido, com a marca mais solidificada e com os filhos dividindo o ônus da administração, surgiu a ideia da foto.
A despeito do sucesso que a embalagem com foto fez junto aos lojistas, a imagem acabou ganhando vida própria. Tornou-se simbólica, representativa não de um sapato, mas de toda uma classe profissional. Ninguém sabe o motivo. Talvez seja o poder de síntese dessa imagem, capaz de exprimir em um primeiro contato toda a poesia, a beleza e as dificuldades da profissão, tão reconhecida e tão importante para essa cidade. Talvez nunca saibamos ao certo os motivos que fizeram essa imagem transcender sua intenção original. Se as imagens realmente valem por mil palavras, aqui em Franca podemos dizer que elas também valem por mil sapateiros... ou mais.
Comércio da Franca - O senhor começou como sapateiro, mas logo percebeu que não iria muito longe se ficasse limitado a esse serviço. Como se deu essa passagem para a produção?
Zé Mineiro - Foi simples. Eu precisava de dinheiro no final da semana. A mulher precisava fazer compras. Eu precisava percorrer alguns clientes para receber alguma coisa, mas o que conseguia era mais sapatos para consertar e a promessa de pagamento futuro. Assim não dava para continuar. Então, comecei a comprar retalhos de couro e a fazer botinas para vender. Depois do expediente normal na sapataria, ia para casa, tomava um banho e voltava para fazer as botinas. Nos finais de semana, “tomava” o ônibus e saía pelas cidades da região para vender os produtos. Como eles eram bons, os clientes foram “chegando”. Fui fazendo amigos e vendendo cada vez mais. Aos poucos, deixei de consertar e me concentrei na produção. Levantei um barracão nos fundos de minha casa e contratei alguns ajudantes para aumentar a produção. O pai do Valdes Rodrigues [radialista da Difusora AM], inclusive, foi meu primeiro vendedor. Com estava dando certo, abandonei a sapataria. Fiquei na produção e na entrega. Viajei todo o Estado de São Paulo e parte de Minas entregando sapato.
Comércio- Nessas entregas o senhor se passava por funcionário da empresa. Por quê?
Zé Mineiro - (Risos) É engraçado... É que na época, apesar de a venda já ter sido feita, as pessoas tinham o costume de dar uma última pechinchada quando você chegava para entregar a mercadoria. Para não ter que discutir ou renegociar, para não ter nenhum desgaste, eu já ia dizendo que era empregado e não podia fazer nada. Dizia que morava nos fundos da fábrica, que o pessoal era muito bom pra mim, mas que se fizesse desconto iria levar uma “chamada” do patrão. Aí ninguém insistia e tudo bem, pagavam o que estava combinado.
Comércio - Alguém chegou a descobrir sua estratégia?
Zé Mineiro - Chegou sim. Um grande amigo meu, também chamado Zé. Ele tinha uma loja em Fernandópolis, a Casa Araraquara. Eu chegava lá e ele me convidava para comer uns quibes, pastéis e guaraná. Acho que ficava com pena... (risos). Quando aconteceu a primeira Francal, ali no estádio do Palmeiras, ele veio para Franca. Claro, veio me visitar. Levei-o para cozinha, como sempre fazia com todos que me visitavam. Sou mineiro, né? É difícil alguém vir a minha casa sem tomar café e comer uns biscoitinhos. Pois bem, conversamos, comemos e proseamos. Em certa altura da conversa, o Zé me perguntou: ‘Xará’, era assim que ele me chamava, ‘cadê o dono da fábrica’? Minha nossa, fiquei com uma vergonha! Mas não teve jeito, tive que dizer a verdade. Expliquei pra ele minha estratégia e nós ficamos rindo um tempão.
Comércio - Mas nem tudo foi alegria, não é? Fale um pouco sobre o incêndio que destruiu totalmente sua fábrica.
Zé Mineiro - (pausa) Eu estava em Batatais, em um casamento. Um amigo me ligou e pediu para eu voltar, mas não me disse tudo, deu uma enrolada. Desconfiado, voltei logo. Quando cheguei, as ruas estavam todas interditadas. Os vizinhos já vieram com chá e água para nos acalmar... (mais pausa). Quando vi estava tudo queimado. Não sobrou nada. Matéria-prima, sapatos, máquinas, foi tudo destruído. Mas o que mais me emocionou nesse episódio foi a solidariedade dos amigos. O José Carlos Brigagão [atual presidente do Sindifranca, sindicato das indústrias] foi realmente um grande amigo. Veio até minha casa, perguntou o que eu precisava e disse que eu não iria parar. Não foi só ele, não. Todos os meus amigos me ligaram e se ofereceram para ajudar, mas o Zé Carlos foi quem juntou tudo. Anotou todas as máquinas necessárias para que eu voltasse a produzir e foi ver quem poderia emprestar. Devo muito a eles. A Agabê, Pestalozzi, Sândalo, Calçados Tasso, Calçados Fernandes, todos me ajudaram. Peguei minhas economias, aluguei um novo barracão, instalei as máquinas e continuei. Logo as coisas se acertaram. Algumas oficinas me ajudaram a recuperar minhas máquinas e aos poucos fui devolvendo todas as emprestadas. São lembranças marcantes, sobretudo pela força da amizade demonstrada por todos. Tinha um amigo português, conhecido como Azé, que trabalhava com café. Ele comprava, torrava e depois distribuía. Chegou em casa e foi dizendo. “Zé, você sabe que dinheiro eu não tenho. Mas vou te deixar três quilos de café para você tomar com seus amigos.” Acho que amizades como essas já não existem hoje em dia.
Comércio - Por que essa estratégia de produzir apenas 120 pares por dia?
Zé Mineiro - Eu botei duas coisas na cabeça: a primeira era formar meus filhos. Queria que eles tivessem o que eu não tive. A segunda era comprar tudo à vista. Não queria ter dívidas. Fiz as contas e vi que com 120 pares por dia eu alcançaria esses objetivos tranquilamente. Eu não queria me arriscar. Se aumentasse a produção, poderia quebrar, como aconteceu e ainda acontece com muita gente. Menos também não daria para viver como eu queria, nem estudar os meninos. Então “empaquei” nos 120. O pessoal começou a me gozar e chamar de Zé 120, mas ninguém tirou essa idéia de minha cabeça. E deu certo.
Comércio - E esse negócio de se tornar a imagem do sapateiro de Franca como começou?
Zé Mineiro - A gente queria fazer uma caixa de sapato diferente. Produzimos a foto e a imprimimos na caixa. Depois minha nora levou essa caixa na aula de pintura. A Sandra Freitas, artista plástica, pegou a caixa e sumiu com ela. Meses depois, apareceu com um belo quadro. Nós o compramos e começamos a usar a imagem pintada, em vez da foto. Acho que isso ajudou a dar um ar de passado. As pessoas acham que o cara da imagem é um artesão do passado ou alguém que já morreu. Talvez até pensem que é apenas uma pintura e que esse sapateiro nunca existiu. É engraçado. Quando fazemos treinamento aqui na fábrica, quando trazemos vendedores de vários lugares do Brasil, muitos deles se emocionam quando me vêem. Como estão acostumados com a imagem, já que ela toma boa parte da caixa, se emocionam quando ficam sabendo que sou eu. Já teve gente que desceu do ônibus, me abraçou e até chorou. Virou marca registrada da Jota Pe. As empresas não deixam a gente mudar a embalagem.
Comércio - E o futuro?
Zé Mineiro - Hoje eu estou aposentado. Doei tudo para meus filhos. O barracão e a fábrica [que hoje tem 230 funcionários e produz 3 mil pares/dia]. Tenho uma vida simples, mas muito gostosa. Faço hidroginástica e caminho bastante. Viajo com minha esposa Zenaide [companheira de quase 60 anos], como fora quase todos os dias e venho bastante à fábrica, mas sem compromisso. Entrego cestas básicas que são compradas com o dinheiro da venda de sucata e vou levando a vida desse jeito. Acho que estou em dia com ela.