08 de julho de 2026

Cheiros e lembranças


| Tempo de leitura: 4 min

Ao contrário do que se pensa, registros de memória não são apenas visuais. São, na verdade, o conjunto das observações emocionais, sonoras, táteis, gustativas, olfativas. Visuais, também


Dias destes, durante caminhada que ando praticando pouco e devia voltar a fazer com a mesma intensidade de alguns anos atrás – caminhar faz um bem danado, mais do que remédios, massagens e outros quetais que pregam soluções para todos os males – senti de novo o cheiro inconfundível da floração de jaboticabeiras.

Retornaram lembranças do imenso quintal da casa de vovôs Sinhá e Zequinha, espaço que considerava meu e cenário dominado por várias jaboticabeiras. Lembrei-me de cada árvore, dos troncos e galhos por onde se podia ir ‘às pontas’ onde estavam sempre as jaboticabas maiores, sabe como é? É assim que as ‘gavetinhas’ da memória funcionam. Está tudo guardado mas, sem estímulo, nada feito. Lembrei-me, quase imediatamente, de distantes tardes de sábado nas quais, com amigos da época partíamos para um futebol diferente, jogado entre as jaboticabeiras – as árvores serviam como ‘tabela’. O marcador partia e a gente dada um biquinho na bola para que resvalasse na árvore e deixava o Vitor Ferraro, o Paulo Alvarenga, o Alex Alemão (onde será que anda?), o Wellington Tristão, o Zezinho Oliveira (vi-o outro dia, não mudou nada mas a receita ele não conta: será formol?) sem lenço e sem documento.

A bola de cobertão era o catalizador. Os “rachas” naquele quintal fantástico jamais foram esquecidos também por causa dos ‘galos’ que resultavam das trombadas, vez em sempre, com os galhos das árvores, mas, fundamentalmente, pelo companheirismo, vivência de grupo em competição sadia, apesar dos ‘carrinhos’ que o Zezinho Oliveira insistia em nos brindar. Corríamos em direção ao gol pequeno, um ao lado do tamarineiro e em frente a muro de taipa que nos separava da horta do vizinho da rua Prudente de Morais; e outro, do outro lado, grudado a outro muro de taipa que fingia que caia, mas nunca caiu, divisa com o quintal da casa do mestre Agostinho Ferrante – pintor que esta Franca não reverenciou como devia, nem em vida e nem depois que se foi em meados da década de 1990 – para onde a bola sempre insistia em ir. A amizade com os filhos do casal Agostinho e Leonor, especialmente com Agostinho Filho, proporcionavam a que a bola voltasse; mesmo que a gente mesmo pulasse o muro e fosse buscar. Eunice, uma das irmãs dele, me achava um moleque terrível mas nunca armou arapucas para me prender a perna quando invadia o quintal deles em busca da bola.

E EÍS QUE...
O texto que você acaba de ler, ou cerca de 95% dele, escrevi ao fazer experiências de criação de um blog, em 2005. Escrevi e esqueci. Anteontem, no exercício do trabalho de edição da página 2 do Comércio, seção de cartas de leitores, encontrei um e-mail assinado por Eunice... Ferrante, pedindo informações sobre espaço para convidar amigos de seus pais... Agostinho Ferrante e Leonor, a um ato diferente e emotivo: o traslado dos restos mortais deles para o Cemitério da Saudade, em Franca. Surpreendi-me. Dia destes, em busca de informações sobre a pintura que Agostinho Ferrante produziu para a parede dos fundos do antigo Mercadão Municipal, acabei encontrando o texto do blog-experiência e, ao ler, lembrei-me com carinho de seus filhos, gente que conviveu comigo boa parte da infância e início de juventude. Tinha até um comentarista, Wanderley – que não sei quem é mas agradeço sua manifestação –, que recordou-me o nome dos 5 filhos de Agostinho pai e Leonor (Edna, Eunice, Leonor, Agostinho e Roberto). A Internet é, mesmo, mágica.

E, ESPECIAL SURPRESA
Liguei a Eunice. “É Luiz Neto que fala”. E ela: “Quem?”. Claro. Naquele tempo, eu era o Zé Luiz. Repeti: “é o Zé Luiz, ex-vizinho de vocês, em Franca”. Explosivas manifestações de carinho e satisfação de reencontro. Recebi Eunice no GCN. Transformamos o traslado em pauta que, dia destes, nossos leitores vão ler. Surpresa ainda maior ao rever também o Agostinho, companheiro das várias jornadas de futebol, pipas, carrinhos de rolimã e traquinagens próprias de uma garotada que não tinha televisão, geladeira, videogame, celular, mas que teve pai e mãe, escola referencial e que se tornou gente. Pois é... O que pode causar um estímulo olfativo como o das flores de jaboticaba, não é mesmo?

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br