Você já viu o abate de um boi? Presenciei-o uma única vez e fiquei impressionado. Evidentemente, os métodos atuais de abate devem ser menos cruéis. Porém, naquela época , a cena era chocante. O bicho sabia que ia morrer. Trazia pavor em seus olhos. Eles amarravam o boi num tronco, faziam-no girar por alguns momentos e desfechavam uma pancada em sua cabeça com uma marreta de madeira. O animal caía e, imediatamente, cortavam-lhe o pescoço com uma grande faca afiada . Tiravam-lhe a pele que era esticada por bambus, salgavam-na e punham-na para secar. Facas, facões e machadinhas separavam, com rapidez e habilidade, os diversos tipos de carne, as costelas, o fígado, o bucho, as patas, os chifres. Do boi, nada se perdia. Em pouco tempo, ele estava destrinchado e suas partes prontas para o consumo.
O sacrifício de um suíno era menos chocante. O capado grunhia a mais não poder e a barulheira só terminava quando um punhal, penetrando o seu sovaco esquerdo, atingia o coração. Sem perda de tempo, sapecavam o porco no fogo de um palheiro, raspavam sua pele com uma faca e começavam a abri-lo. Ficávamos em volta do acontecimento na expectativa de um pedaço de pele tostada, uma parte do rabo ou da orelha. Eram saborosíssimos! A gordura do porco era derretida e suas carnes iam para a frigideira , sendo depois conservadas nas latas de 20 litros cheinhas de banha.
A morte de um frango podia ser de várias maneiras. Uns preferiam torcer -lhe o pescoço. Minha tia Dirce asfixiava a ave colocando um cabo de vassoura sobre o seu pescoço e pisando-o com os dois pés. Meu pai, encarregado de matar o frango em minha casa aos domingos, depois de tirar algumas penas, cortava o pescoço e deixava o sangue escorrer para dentro de uma vasilha , sem se esquecer de espremer um limão. Era com o sangue que minha mãe fazia o delicioso frango ao molho pardo.
De todos os abates, segundo dizem, o mais triste de se ver é o do carneiro. Nunca presenciei o seu sacrifício. Quando chegava na casa do meu avô, o cordeiro já estava dependurado na travessa da porta da cozinha, cheio de ar ( introduzido por uma bomba de pneu de bicicleta ) e pronto para ser despelado e destrinchado.
Confesso, meu caro leitor, que eu tenho muita pena desses animais abatidos. Contudo, quando eles são postos à mesa, o dó acaba e surge um voraz apetite. Além do mais, se eles não fossem destinados ao abate, provavelmente já estariam relacionados numa lista de espécimens em extinção.