Segundo consultores e analistas, nossa indústria calçadista continua apresentando os mesmos problemas, que persistem na produção e nas vendas, principalmente. Apesar de já bastante conhecidos e debatidos, parece que nossos empresários têm adiado constantemente o momento de iniciar as mudanças necessárias para resolvê-los.
Ainda de acordo com esses especialistas, se as mudanças não forem implementadas rapidamente, talvez não haja tempo para ‘dar a volta por cima’. Além da China, a Índia e Indonésia já estão nos superando em termos de qualidade e quantidade. Sem nenhum catastrofismo ingênuo, poderíamos dizer que nossa força industrial baseada no calçado poderia estar com os dias contados, como aconteceu um dia com a indústria cafeeira, tão imponente em um determinado momento de nossa história.
Apesar de ainda presente e importante em nossa economia, o café já não é mais o que foi um dia. Ficou mais como recordação.
Coincidente ou ironicamente, essa recordação fez-se presente na entrega do Prêmio Francal Top de Estilismo. Realizada em um antigo e majestoso casarão, construído por um de nossos barões do café, a festa remetia convidados e homenageados para uma época em que o café comandava a política e a economia brasileira.
Nesse cenário, os designers francanos esbanjaram criatividade. Dos quinze prêmios em jogo, faturamos cinco, sendo três primeiros lugares.
Um resultado animador para o futuro de nossa indústria, sem dúvida, mas que nos obriga a algumas reflexões. Se realmente nossos analistas estão certos em sua interpretação do que acontece no entorno de nossa indústria, existe um hiato entre os entraves que perpassam os processos e procedimentos e a evolução do design, responsável pela dinâmica e diversidade de nossos produtos, um fator fundamental para competir nos dias de hoje.
Nesse sentido, corremos o risco de nadar, nadar e morrer na praia. Se não fizermos a lição de casa e não melhorarmos os processos hoje emperrados, poderemos estar formando excelentes designers para outras empresas, desperdiçando uma excelente oportunidade de melhorarmos nossa competitividade.
De nada adianta inovarmos em design, se estivermos capengas nos processos produtivos e de vendas. Precisamos buscar o equilíbrio. É necessário inovar em todas as áreas da cadeia produtiva.
Se o setor calçadista não se atentar a esses detalhes, não refletir sobre as advertências feitas por especialistas e não ensejar mudanças na velocidade e no ritmo necessário, talvez a futura indústria que porventura venha a suceder à calçadista, caso ela deixe a primazia da economia francana, faça a sua entrega de prêmios em antigas instalações de fábricas de sapato. Sobrará apenas a nostalgia de uma época áurea, como sucedeu agora com o café.
Na dúvida, é melhor abrir os olhos.