Volta e meia chega correspondência comentando meus textos. Ou nota. Leio e respondo, tarefa às vezes prejudicada por falta de identificação certa. Confesso, os comentários me tocam um bocado
Alguns me envaidecem. Muitos me fazem pensar. Outros me espinafram – risco inerente a quem se expõe. Incitantes e estimuladores, de qualquer forma. Quem escreve sonha em ser entendido e compreendido; deseja que o leitor perceba o que está subjacente, o que está explícito, o que está nas entrelinhas – da forma como ele idealizou. Às vezes, o tiro sai pela culatra. Já provoquei risos com lacrimosas palavras; já fui analisada, quando queria me esconder; já me acharam sábia, quando estava perdida; já fiz muita gente se perder, quando apostava estar orientando. Escrever é até fácil. Difícil é interpretar o que o escritor colocou no papel: quem pensa que a gente lê com os olhos, se enganou. Lemos, de verdade, é com o coração.
Volta e meia me chamam de saudosista. Não sou. Nunca fui. Saudosismo é ‘gosto ou tendência para superestimar o passado.’ Diferente de gostar de superestimar o passado, eu gosto do passado. E gosto, particularmente, do meu passado. Mas nem de longe voltaria para lá. Não lamento o tempo esvaído. Não choro leite derramado. Não reescreveria minha história. Diferente de possuir tendência para superestimar o passado, vivo com os pés fincados no chão do hoje e tendo, isso sim, usar os feitos antigos como catapulta para ir logo para o futuro. As coisas do meu passado são referências e instrumentos para meus projetos do futuro: meu grande risco é, ao projetar lá adiante, esquecer o aqui e agora. Estou atenta para que isso não ocorra.
Não nego meu passado e percebo tal negação até mesmo entre as pessoas mais próximas. Da minha parte, seria estupidez fazê-lo: convivi com muita gente que conhece minha origem simples, que acompanha de perto minha vida, que fiz sofrer com meus defeitos e hoje me odeia, que ajudei através do meu lado anjo (que vem à tona, embora raramente) e hoje me ama. Gosto de lembrar da minha juventude, que foi a mesma de tantos outros e falar da inconsequência, da limitação de recursos para tomar decisões, da ingenuidade típica de quem acha que sabe tudo; da tonicidade de pele que nenhum creme milionário conseguiu restituir; da capacidade de ficar acordado noite inteira e, sem olheiras, trabalhar o dia inteiro seguinte; da facilidade em aprender a lidar com aparelhos novos; da coragem em ousar; do atrevimento em aceitar o extravagante; da imprudência; do destemor e do arrojo que todos exibíamos.
Eliminada a voracidade de antigamente, toda vez que volto ao passado e reforço a lembrança de tais atitudes, percebo a diferença entre ficar velho e envelhecer.
Envelhecer não é, por exemplo, perder a tonicidade da pele: isso é inevitável. Ficar velho é ficar em frente ao espelho lamentando. Ficar velho é repudiar o conhecimento novo; envelhecer é reconhecer que precisa de ajuda, mas aprende (aprendeu a extrair raiz quadrada, a dividir por dois, três, quatro algarismos, ora essa...). Ficar velho é pejorativo e decadente; envelhecer é o que acontece todos os dias com todos os seres vivos, de qualquer idade: é mudar de um estado para outro. Ficar velho é estático. Envelhecer é processo. Velho é hermético; o Envelhescente (o termo é do Mário Prata) se abre para curtir o momento e aprender com ele. O Velho é zombador porque se crê imortal feito deus grego e, nem percebe, semelhante a eles, imaturo, vingativo, colérico e arrogante; o Envelhescente reconhece-se limitado e só dá o passo do tamanho de suas pernas. Qualquer pessoa, de qualquer idade, pode ser Velho. O Envelhescente é fruto de alguma sabedoria e muita aceitação do óbvio. E admitir o óbvio, maninha, é difícil que dói...
DESRESPEITO
Avenida Dr. Alonso – três pistas, intenso movimento de ônibus, caminhões, carros, bicicletas e motos. Quatro da tarde, subida em direção ao Centro, logo após a rotatória do esqueleto, ponto próximo ao prédio antigo abandonado. Do lado direito da pista para carrão importado, com jovem senhora ao volante. Ao lado, para outra jovem senhora, em outro carrão importado. Para em fila dupla, sem dar mostra de suspeitar (nem falo reconhecer) que possa haver outros carros e desejos além do dela. Buzino, assustada: se tivesse com velocidade pouco maior, não teria como desviar. Ela deve ter certeza de que retrovisor serve, apenas, para retocar batom. Ela põe a mão para fora, gesticulando como se estivesse secando o esmalte recém-aplicado. Depois é que percebo o significado: era para eu ir para a pista da extrema esquerda! Ela queria parar e conversar, ora essa.
BAZAR
Um dos sinais de que o fim de ano chegou: a realização dos bazares que oferecem trabalhos artesanais por preços sedutores. Durante o ano todo voluntárias executam, como formiguinhas laboriosas, trabalhos maravilhosos – na sua maioria, bordados e crochês – em peças para os lares. Ao se aproximar dezembro, elas organizam exposições nas quais são expostas as peças, que desaparecem quase que no mesmo instante. Dos mais concorridos, o das Voluntárias do Aeroporto já está anunciado: dias 27 e 28 de outubro, das 9 às 18 horas, na rua Tiradentes, nº 1645.
CRÔNICA
Procure nos sítios virtuais pela crônica ‘Você é um envelhescente?’, de Mário Prata. Impossível que não nos enxerguemos nela. Alguns de nós, porque já chegamos lá; outros porque já passaram de lá. E os restantes porque chegarão lá. Estes, por menos que imaginem, ou queiram, se não morrerem – o que será pior – chegarão lá. Senão, pelo livro 100 Crônicas, Cartaz Editorial/Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, 1997, pág. 13.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br