Maílson da Nóbrega foi ministro da Fazenda no fim da década de 80 durante o governo José Sarney. Era um dos momentos mais turbulentos da economia nacional com uma inflação que chegava a 84%. O economista, considerado um dos mais confiáveis consultores do mercado, veio a Franca pela primeira vez ontem. Fez palestra sobre a crise mundial e avaliou as perspectivas da economia brasileira no Circuito do Conhecimento, evento promovido pelo grupo Algar Telecom. Disse que a solução para a crise da Grécia é o calote ordenado. Avaliou que o Brasil está preparado e com poucas chances de ser afetado. “Desta vez, o Brasil não quebra. O risco, que no passado era de instabilidade, insegurança e incerteza, agora, é se crescemos mais ou menos.” Fez críticas ao ex-presidente Lula e afirmou que a tendência é que o governo Dilma Rousseff seja uma “simples continuidade” do anterior.
O consultor iniciou a palestra dizendo que é impossível pensar no futuro sem levar em consideração o que está acontecendo atualmente na Europa. Na sua avaliação, a crise europeia é um desdobramento da crise iniciada em 2008 nos Estados Unidos. As razões seriam a decepção com o ritmo de recuperação da economia americana, o risco de contágio na Itália e Espanha e as negociações e o rebaixamento da dívida pública americana. “O cenário mais provável para a crise grega é o calote ordenado. Perdoar parte da dívida é a saída. Tudo indica que é o que vai acontecer. Esta medida acalmará o mercado.”
Maílson da Nóbrega acha pouco provável que o Brasil sinta os efeitos da crise europeia. Ele disse que o País está mais resistente, resultado de um sistema financeiro sólido e sofisticado, estabilidade macroeconômica, situação externa confortável e tendência de investimento. “Não vamos sofrer praticamente nada aqui. O Brasil exporta uma parte de seus produtos para a Europa, mas o nosso grande parceiro é a China. O risco do Brasil seria um desaceleração forte da economia chinesa.”
O consultor disse que a situação confortável da economia nacional é fruto de um processo de transformação institucional que aconteceu nos últimos 25 anos. O trabalho teria se originado no governo militar e aperfeiçoado aos poucos nos governos seguintes. “O Lula adora dizer que ele melhorou a economia. Ele deu uma grande contribuição que foi não ter feito nada. Permitiu que a economia continuasse se consolidando.”
O ex-ministro avalia que Dilma Rousseff terá dificuldades para governar e que é pouco provável que faça grandes reformas. “Não teremos nenhum avanço importante. A reforma tributária ficará para outro tempo. Também não teremos nenhum retrocesso.” A tendência, segundo ele, é que a economia cresça em ritmo menos acelerado, que a taxa de desemprego caia, que os juros baixem e que a taxa de câmbio se estabilize. Sua perspectiva é que o dólar fique em torno de R$ 1,70 e R$ 1,75 até o fim do ano. “Tudo indica que, resolvida a crise europeia, o real volte a se valorizar. O Brasil passou por transformações muito profundas nos últimos anos e reuniu as condições institucionais para ser um País estável, promissor. Tudo depende da capacidade que tenha este e os próximos governos de fazer as reformas necessárias para aumentar a produtividade de sua indústria e aumentar a competitividade de seus produtos no exterior.”