Hideko Shineha, 72 anos de idade, 53 anos de Brasil. Na bagagem da vida, as saudades do Japão - país que deixou aos 19 anos - e a luta pelo sonho em ler e escrever em português, língua que sempre teve muita dificuldade em aprender. Há três anos em Franca, Hideko finalmente realiza seu sonho. E com ele, desperta o gosto pela arte - desenho, pintura a óleo, bordado, crochê - algo que vinha adormecido desde a infância no Japão. Aluna da EJA (Educação de Jovens e Adultos) no CCI (Centro de Convivência do Idoso) Mário Betarello, no Jardim Redentor, Hideko foi convidada a criar o desenho para a capa do livro 6º Concurso de Poesias, lançado pela Secretaria Municipal de Educação no dia 28 de setembro. Entusiasmada com o convívio com os integrantes do CCI, ela diz “Aqui é minha segunda casa. Realizei meu sonho de poder ler e escrever em português. Fiz muitos amigos e passei a me interessar pela arte. Franca é uma delícia de cidade”.
A relação de Hideko com o Brasil começa em 1958, ano em que ela deixou a cidade de Kushima, no Japão, e veio para o Brasil com o tio e os primos. “Meu tio já morava no Brasil. Em uma de suas visitas ao Japão, vim com ele e meus primos para o interior de São Paulo, em Pompéia”, diz. As notícias do Japão demoravam para chegar na época. Sem televisão e sem telefone, a única forma de comunicar-se com os pais era por cartas. “Levava dez dias para chegar lá (no Japão) e mais dez dias para voltar. O que a gente chorava...”, lembra.
O casamento veio um ano depois, quando ela completou 20 anos. “Meu marido também é japonês, mas já morava no Brasil. Foi meu tio quem arranjou meu casamento. Naquela época, as coisas eram assim”, lembra. Depois de quatro anos em Pompéia, e com o nascimento do primeiro filho, Hideko e o marido mudaram-se para São Paulo. Na capital, instalaram-se no bairro da Liberdade, e o marido passou a trabalhar como autônomo no Mercado Municipal.
Apesar de o marido falar português, Hideko sempre teve dificuldade para aprender a língua. Como não tinha fluência no idioma, era difícil arranjar emprego. Fez então um curso de corte e costura e matriculou-se em uma escola de cabeleireiros. “Durante a semana eu costurava, e aos finais de semana ajudava minha cunhada no salão de beleza que ela tinha. Mas era muito difícil, eu não conseguia me comunicar. Falava um pouco de português e quando percebia já estava falando japonês de novo. Não conseguia conversar com as clientes”, conta.
Mesmo com a dificuldade em dominar o português, Hideko criou seus quatro filhos (dois homens e duas mulheres) e os ensinou a falar tanto português quanto japonês. “As professoras reclamavam do sotaque japonês deles, porque eu não perdia a entonação da língua e passava isso para eles. São Paulo foi uma luta, criei meus filhos, netos, nessa dificuldade em me comunicar”, afirma.
Só após 30 anos no Brasil Hideko teve a oportunidade de voltar ao Japão. “Estava com quase 50 anos. Foi uma emoção rever minha mãe”. Depois disso, ela levou os quatro filhos para conhecer o país, e, junto com o marido, passou temporadas trabalhando no Japão. “Trabalhei na Toyota em Aichi, como tradutora para brasileiros. Eu ia para o Japão e voltava a cada dois anos, por causa do visto. Não podemos ficar lá mais que dois anos”, explica.
Além do problema dos vistos, a idade começou a tornar-se empecilho para as temporadas no Japão. “Eles não querem gente idosa trabalhando. Quando me vi nessa realidade, comecei a ter depressão”, diz. E foi aí que Franca entrou na história da vida de Hideko. Uma de suas filhas havia se casado com um francano e mudado para o município. “Estava voltando do Japão e minha filha disse ‘mãe, esqueça São Paulo, lá é muito difícil’. Então eu vim para cá”.
Em Franca, Hideko vive com o marido, já aposentado, em uma casa no bairro Cidade Nova. Quando veio para o município, ainda sofria de depressão. “Não tinha onde fazer atividade. Minha vizinha então me apresentou o CCI. Entrei em agosto de 2009, no mesmo mês em que foi inaugurado o Centro, e comecei a frequentar as aulas do EJA. Já conseguia ler alguma coisa em português, mas escrever era um problema. No começo, os ditados eram impossíveis”, diz. No CCI, além do contato que sempre desejou com a língua portuguesa, Hideko descobriu seu interesse por outras atividades. Tanto que foi convidada pela professora da EJA, Natália Alves de Oliveira, a ilustrar a capa do livro 6º Concurso de Poesias, que reúne 30 poemas escritos pelos alunos da EJA do município. “Aqui eu faço pintura a óleo, pintura a lápis de cor, bordado. Os professores são muito dedicados. Até vôlei e tênis de mesa eu passei a jogar. Aprendi tudo aqui e realizei meu sonho.
A gente até esquece um pouco da saudade do Japão”.