16 de março de 2026

Um ofício complicado


| Tempo de leitura: 5 min
Os leitores são capazes de formar os mais inimagináveis juízos de valor. Tudo depende das crenças, referências e valores de cada um

‘O ouvido é um coletor cujo filtro é a inteligência’
Pierre Veron, escrtior e editor francês


O último sábado, 15 de outubro, foi dia de reunião do Conselho de Leitores. Como sempre, passei umas boas horas ouvindo críticas e considerações sobre o que fazemos, publicamos ou irradiamos. Também falei muito, detalhei minúcias que escapam ao leitor comum, debati abordagens e apostas editoriais. Multiplicavam-se os assuntos que mereciam debate do grupo desde a reunião anterior, acontecida em agosto. Da narrativa que o jornal adotou ao publicar as versões da vítima e do bandido num caso recente de assalto, passando pela cobertura das manifestações que acabaram pressionando a Câmara a manter o número de vereadores em 15, até a repercussão provocada pelo leilão dos túmulos do cemitério da Saudade, discutimos muito, intensamente.

Apesar de ser um grupo pequeno, de apenas onze pessoas, as distintas idades, experiências profissionais e histórias de vida fazem com que o conselho seja uma admirável síntese da diversidade da nossa sociedade - e, por consequência, das pessoas que consomem a informação que produzimos. Exatamente por isso, não é nenhuma surpresa que nossas reuniões raramente encontrem unanimidade em qualquer ponto. Quase sempre, diante da abordagem de uma mesma reportagem, há opiniões não apenas diversas como, também, antagônicas. O que para um foi relevante para o outro foi puro desperdício de espaço. Os leitores são capazes de formar os mais inimagináveis juízos de valor. Depende muito das referências, das posturas ideológicas, das crenças e dos valores de cada um.

Tudo isso faz parte do jogo. Por isso mesmo, ser jornalista e trabalhar em empresas de comunicação exige dos interessados, além de coragem e muita determinação, também uma grande dose de paciência e resignação. Há que se acostumar com as reações - e as consequências - de se desagradar todo mundo, frequentemente. Não é fácil.

Tome-se como exemplo da dificuldade o caso das lojinhas do Leporace. Temos feito uma cobertura intensiva do problema, colocando sempre todas as versões que conseguimos apurar sobre o que ali acontece. Há o aspecto legal, as dificuldades dos moradores, a posição dos comerciantes, as omissões históricas dos políticos, a ação do Ministério Público, o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado entre as partes, a perspectiva do CDHU. Só neste ano, foram dezenas de matérias publicadas sobre o assunto no jornal e incontáveis horas de transmissão na Difusora.

Na última semana, mais uma vez, voltamos ao caso. A notícia era importante. A revitalização do conjunto habitacional, com a construção de um centro comercial e a demolição de lojas irregulares, deveria ter sido iniciada. Não foi porque, segundo a CDHU, houve resistência dos moradores. Publicamos o que disse a superintendência do órgão, ouvimos os comerciantes, representantes dos moradores e o Ministério Público. Tudo certo, não é mesmo? Não. Pelo menos, para o Sr. Nelson da Rocha Neves, para quem o jornal simplesmente não deveria publicar a matéria. Na opinião dele, a reportagem ‘prejudica’ os moradores. Tentei argumentar e mostrar que o fato é verdadeiro, interessa à população de maneira geral e teve abordagem isenta como, de resto, é o objetivo em tudo o que fazemos. De nada adiantou. Para o sr. Nelson, a matéria ‘atrapalha’ e pronto. Esta é a sua ótica de avaliação. Neste caso, todos os demais conselheiros consideraram oportuna e precisa a reportagem.

A divergência que aconteceu com relação ao Leporace está longe de ser um episódio isolado, e tampouco se restringe ao âmbito do conselho. Um outro assunto, que mereceu ampla cobertura de nossos veículos nos últimos dias, reforça quão desafiador é o ofício de produzir bom jornalismo.

O caso envolve o sequestro de uma empresária de Franca. O Comércio, a Difusora e portal GCN foram os únicos veículos a divulgar o fato, fruto de um intenso e bem executado trabalho de reportagem que envolveu vários de nossos profissionais. O crime era mantido em sigilo pela polícia. Conseguimos descobrir o que havia acontecido, falamos com a família da vítima, checamos e confirmamos dados, datas e circunstâncias. Tínhamos certeza de que a vítima já havia sido libertada quando decidimos publicar. Era uma notícia importantíssima, o primeiro sequestro na cidade em anos, e sua divulgação era simplesmente imperativa.

Ainda assim, houve quem classificasse a publicação como ‘sensacionalismo’. Difícil entender, pois todos os cuidados foram tomados, o assunto era relevante e pertinente, preservamos o endereço e a família da vítima e não há nada de incorreto na narrativa que fizemos. Mas para uma pequena parcela de leitores, não deveríamos ter publicado. O mesmo pensa um delegado de polícia que, via perfil de rede social, usa uma lógica toda particular para nos atacar. Ele critica ‘a imprensa’ - vide, o Comércio - por fazer ‘o jogo dos poderosos’.

Chega a ser ridículo. A vítima era uma empresária e teríamos feito ‘o jogo dos poderosos’ se tivéssemos pactuado com o silêncio. Fizemos o oposto. Publicamos, com detalhes, as circunstância de um crime que envolveu ‘gente importante’ e que, nem por isso, é imune à violência - ou ao noticiário. Cumprimos o nosso papel, com orgulho e responsabilidade. Imaginar que o noticiário prejudica por um segundo sequer a investigação policial é supor que os marginais sejam estúpidos. Eles são bandidos, mas não são burros. Certamente, não esperaram a publicação da notícia para fugir. A ação - ou a prisão - destes criminosos independe da existência de cobertura da imprensa.

O jornalista Carlos Alberto di Franco, cultuado como o maior especialista brasileiro em ética na comunicação, foi meu professor no Master em Edição de Jornais. Desde então, nos tornamos relativamente próximos e, com alguma frequência, nos encontramos em São Paulo. É um privilégio.

Di Franco sempre quer saber sobre as novidades que estamos desenvolvendo, novos produtos editoriais que lançamos e, claro, as dificuldades para o exercício da profissão numa cidade do interior. Habitualmente, reclamo dos desafios impostos pela carência de mão de obra, da dificuldade de fazer o Judiciário entender o nosso papel, da reação muitas vezes hostil dos políticos e da dificuldade de convencer o cidadão comum sobre a importância da ampla liberdade de imprensa.

Homem de inteligência e elegância singulares, Di Franco não se cansa de repetir, voz baixa e pausada. ‘Junior, os vereadores atacam vocês? A prefeitura é refratária? A polícia reclama? Há empresários que ameaçam? Vocês são muito processados? Os partidos políticos acusam o jornal de ser aliado dos adversários? Pois então, parabéns. É sinal de que vocês estão praticando excelente jornalismo’. Então, tá. Fica o consolo.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br