Guardo livro de capa dura, onde durante anos registrei todas e quaisquer reuniões já realizadas em casa. Começa em 1971, época do meu casamento, em julho
Aprimeira efeméride anotada foi a do aniversário do dono da casa, em outubro. Começar o livro, com registro masculino? Exagero de avaliação? Senti um cheiro de submissão e sujeição no ar... Na época já fazia discursos feministas, embora não tivesse intenção, só exemplo americano, de queimar sutiã na praça, para protestar.
(Não sei se as pessoas ainda se lembram, mas a “queima de sutiãs” – Bra-Burning – foi cerimônia que nunca aconteceu. Ativistas do movimento WLM (Women’s Liberation Movement) revoltadas com a realização, em setembro de 1968, do concurso Miss América que consideravam agressiva manifestação de “exploração comercial da beleza feminina”, fizeram uma pira com os “instrumentos de tortura” aos quais as mulheres se submetiam no processo de embelezamento – sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços, sprays de laquê, maquiagens, revistas, cintas e espartilhos. Alguém sugeriu tacar fogo, mas a idéia não vingou: não era local apropriado, não tiraram licença para tal. E ninguém arrancou fora o sutiã. Tudo lenda urbana.)
Mas, como dizia, eu registrava tudo no caderninho. Até as reuniões domingueiras, feitas naquele tempo em que não existiam ranchos ou clubes. Os domingos eram também ensolarados e era bom receber os amigos com filhos da mesma idade que os nossos. Bem mais tarde, tentei substituir o livro pelo computador e, ao perceber todo o charme ir embora, voltei ao papel e caneta. Para organizar, tudo bem. Para registrar, nada como a tradição. Em cada registro, com variações na letra e cor da tinta da caneta utilizada, encontrei anotações curiosas. Primeiro os dados fundamentais: número e nome das pessoas, relação das comidas, bebidas, as providências para viabilizar o encontro. Datas devidamente marcadas e com direito a desenhos mirabolantes em torno e sublegenda adequada: Jantar, Aniversário, visita de Fulano, de Sicrano, Réveillon, Natal, Páscoa. Quando se tratava de aniversários, listagem dos convidados “fixos” – parentes e amigos, seguidos pelos nomes dos amigos pessoais do dono, ou dona da festa. As de Natal são particularmente saborosas, enquanto lembranças. Há a relação dos comes e bebes – aquele despropósito, seguida pela de presentes, outro despropósito.
É um livro de memórias da família. Folhando-o, registro a permanência de nomes que atravessaram conosco a passagem do século; de outros que, mencionados algumas vezes, desapareceram e até foram esquecidos. Nomes dos que já se foram, de outros que surgiram e continuam. Dá para acompanhar casamentos desfeitos dos amigos e novas configurações de casais. Percebe-se a evolução das famílias: casal, casal e um filho, casal e dois, três filhos, casal e cinco filhos (nasceram gêmeos). Emoção pura. Principalmente porque o primeiro livro termina e outros, do mesmo tipo e capas diferentes, continuam a registrar nossa saga. Se os nomes mudam, cardápios revelam evolução e acuro do nosso paladar (e bolso), inclusive o motivo das comemorações: quando comecei, nem imaginava que iria comemorar aniversário de neto.
O hábito persiste, há décadas permanece, o que vem me provar, principalmente, que não sou tão leviana e inconstante nos meus hábitos, quanto quero fazer crer e eu mesma acredito. Que adoro juntar gente para festejar o que quer que seja. Que, para juntar, preparo com carinho os pormenores. Que já passou muita gente por nossas casas e vidas dos familiares. E que eu devia ter feito um relato escrito, mais pormenorizado, descrevendo as emoções daqueles momentos fantásticos desfrutados com quem já foi e, por um motivo ou outro, não voltou mais.
Mulher
Se há saída para a condição da mulher de hoje?... “No final deste milênio, inúmeras vozes se levantaram para denunciar o conteúdo abstrato e falso de idéias como mulheres são como homens e devem se beneficiar de direitos iguais, que nunca levaram em conta as diferenças concretas entre os sexos. Para lutar contra a subordinação feminina, essa nova ética considera que não se devem adotar os valores masculinos para se parecer com os homens. Mas que, ao contrário, deve-se repensar e valorizar os interesses e as virtudes femininas. Equilibrar o público e o privado, a liberdade individual, controlar o hedonismo e os desejos, contornar o vazio da pós-modernidade, evitar o cinismo e a ironia diante da vida política. Enfim, as mulheres têm uma agenda complexa. Mas, se não for cumprida, seguiremos apenas modernas. Sem, de fato, entrar na modernidade.” (Mary Del Priore)
Debutantes
Em 1960, o Lions Club de Franca realizava o 1º Baile das Debutantes da cidade e região. Dezesseis mocinhas eram apresentadas em grande estilo à sociedade francana. Aconteceu na AEC-Centro e o baile teve a animação da Orquestra William Fourneaut. Ade Bettarello foi a grande comandante, assessorada entre outras por Estela Palermo, Yolanda Guerra Sandoval e Lolita Silveira. O casal paraninfo escolhido também era da terra: dr. Antônio Baldijão Seixas e sua esposa, d. Nenê.
Trânsito
Houvesse o concurso, hoje seria das mulheres o prêmio de “maior agressividade no trânsito”. Dizem, é só observar: elas gritam, acenam, fazem gestos obscenos e hostis. Ofendem. Impacientes, buzinam com insistência. Apressadas, fazem ultrapassagens perigosas. Indelicadas, gritam com o motorista do carro da frente que parou para o pedestre atravessar na faixa adequada. Egoístas, não hesitam em formar filas duplas nas portas das escolas. Insensíveis, buzinam inclusive nas proximidades de hospitais. Nosso gênero está perdendo a classificação de seres dotados de delicadeza e sensibilidade. Algumas de nós, já perdeu até a classe.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br