O mundo realmente dá voltas. Às vezes, muito rápidas, é verdade. Na semana passada os vereadores agiram ao bel prazer. Na linguagem popular, legislaram em causa própria. Tranqüilos, votaram sem qualquer interferência, e de acordo com suas preferências, a despeito destas não serem as mesmas de seus representados. Aprovaram os próprios salários e de quebra os do executivo. Tão à vontade estavam que o vereador Jepp Pereira ironizou a empresária Viviane Araújo por não ter conseguido fazer com que sua campanha no Face book se concretizasse em manifestantes no plenário da Câmara.
Na última quinta-feira, porém, o enredo modificou-se. O plenário se encheu. Centenas de estudantes, com a energia que lhes é peculiar, protestaram. Entre assovios e palavras de ordem, desordenaram a tranqüilidade e os votos de nossos vereadores. Havia também professores. A maioria revoltada com o aumento de salários dos vereadores, mas muitos deles também preocupados com questões relativas a sua própria classe profissional.
De qualquer forma, tanto estudantes quanto professores deram uma grande lição de civilidade. Lotar o plenário da Câmara deveria ser uma prática comum. Não apenas para reclamar ou protestar, mas também para acompanhar o trabalho de nossos legisladores.
Como o mundo se desenvolve entre disputas de interesses privados, é normal que grupos de pessoas, sejam eles profissionais, religiosos, desportistas ou qualquer outro tipo de agrupamento tenham sempre interesses nas matérias votadas por aqueles que se incumbem de formular nossas leis.
Porém, o que assistimos em nosso cotidiano não é bem assim. Premidos pelo tempo e pelas dificuldades do cotidiano, poucos de nós se dispõem à luta efetiva pela democracia. No mais das vezes, assistimos de casa o ‘andar da carruagem’. Confortáveis e acomodados às prerrogativas da vida moderna, preferimos as reclamações mais fáceis nos espaços cedidos pelos jornais, pelas rádios e, mais recentemente, pelas redes sociais.
De qualquer forma, os que estiveram presentes na Câmara na última quinta-feira puderam ‘vingar’ a toda uma população, com certeza irmanada com os que lá estiveram. Como em um passe de mágica, todos os impasses e divergências da Câmara desapareceram. Uma unanimidade raras vezes vista. Por 15 votos a 0 nossos vereadores recuaram diante do clamor popular e não aumentaram as vagas para vereador na próxima legislatura. Mesmos aqueles que eram favoráveis ao aumento não tiveram coragem de manifestar-se. Mais um sinal, inclusive, de que não havia, aparentemente, voto de convicção e, sim, voto de conveniência.
O fato é que silenciaram. Como muitos já haviam se manifestado, fica fácil perceber que não votaram de acordo com suas consciências. Votaram impulsionados pelo medo das próximas urnas. Ou, talvez, porque estivessem a consciência pesada.