‘Não sou homem de ter uma opinião no bolso e outra na lapela’
Otto Lara Resende, jornalista e escritor brasileiro
Foi na segunda metade dos anos 90 que o então vereador Gilmar Dominici, do PT, desistiu de uma reeleição tranquila para se aventurar na disputa pela cadeira de prefeito. Deu certo e Gilmar acabou eleito, para surpresa de quase todo mundo.
O início foi traumático, para dizer o mínimo. Uma dívida inesperada herdada do governo Ary Balieiro e a desastrosa decisão de indicar Augusto Pereira Filho para o comando das finanças levaram o governo a uma situação delicada. Sem dinheiro, houve problema com salários e fornecedores. Apelaram para um maldito empréstimo que, durante anos, serviria de combustível para a oposição culpar Gilmar Dominici pelo endividamento da prefeitura. Na Câmara, a oposição era ferrenha e os projetos do Executivo só eram aprovados depois de batalhas campais.
Numa dessas ocasiões, o secretário da Educação, o professor Luiz Cruz de Oliveira, homem de admirável coerência e retidão, havia anunciado em entrevista ao Comércio que pretendia acabar com o supletivo municipal presencial. Segundo ele, supletivo por supletivo era melhor manter apenas a modalidade à distância, mais barato e de resultados didáticos semelhantes. A medida permitiria uma economia considerável de dinheiro.
A notícia, estampada na capa do Comércio, provocou um terremoto. A sessão que votaria o projeto na Câmara foi para lá de tensa, com protestos de professores e pais de alunos. Havia gente com cartazes bastante agressivos contra a administração municipal. Apressados, homens ligados ao círculo íntimo do prefeito reagiram com ataques violentíssimos ao jornal. Um deles, conhecido mais pela truculência das palavras do que pela elegância dos gestos, jurava que ‘o Comércio havia ‘contratado’ alunos da Apae para protestar’. Puro delírio. Outros assessores do prefeito garantiam que tudo que havíamos escrito era ‘invenção’ e que ‘ninguém da administração’ havia jamais pensado em acabar com o supletivo.
É claro que nunca inventamos coisa alguma. O professor Luiz Cruz, felizmente, fez o que se espera de um homem honrado. Confirmou, no dia seguinte, o teor da entrevista. E reafirmou, uma vez mais, que era seu plano acabar com o supletivo. Foi um balde de água fria na facção petista que, naquele instante, tentava nos demonizar, culpando o noticiário pela crise na prefeitura. Esqueciam-se de que as páginas do jornal refletiam apenas as dificuldades que eles enfrentavam. Não é o noticiário que provoca o problema. Ele apenas registra, repercute e, obviamente, nos espaços adequados, opina. Mas não produz nem gera confusão onde inexiste problema.
Pouco tempo depois, coube ao mesmo Luiz Cruz assumir com rédeas firmes o comando das finanças municipais, já muito precarizadas. Foi numa manhã de sábado, quando saía do jornal depois de uma noite de muito trabalho, que topei com o professor caminhando pela rua Ouvidor Freire. Educado e gentil como sempre, parou para conversar. Em pé mesmo, ao lado do poste de luz da CPFL, discutimos sobre os rumos que o governo tomava e os muitos desafios que enfrentava. E, também, relembramos o episódio do supletivo à distância e a reação colérica no seio do governo.
Perguntei ao professor o que, na opinião dele, acontecia com os políticos depois de ungidos para um mandato qualquer. Por que pareciam tão distantes das ruas, da opinião pública, da vida real. E por que o governo municipal havia reagido de maneira tão truculenta. Me lembro, em detalhes, da resposta daquele homem a quem passei a admirar ainda com maior intensidade.
‘O problema, Junior, é que o político eleito, ainda que sem perceber, passa a ouvir a opinião apenas de quem depende dele. Assim, ele pergunta para seus secretários e assessores o que eles acham disso ou daquilo’, argumentou. ‘É como alguém que pergunta à família o que pensa dele. A resposta, quase sempre, é positiva. Vira uma bolha. Para governar bem é preciso ouvir quem está distante do poder. Não adianta perguntar para quem mora na mesma rua’, ensinou.
As palavras de Luiz Cruz ecoaram na minha cabeça esta semana, resgatadas sabe-se-lá por qual mecanismo, depois da histórica sessão da última quinta-feira, quando o plenário lotado por estudantes, professores e populares exerceu uma notável pressão sobre os vereadores durante a discussão do projeto que pretendia aumentar em 50% o número de cadeiras no legislativo municipal.
Uma semana antes, os mesmos vereadores tinham aprovado um pacotaço de aumentos para o próximo prefeito, o vice, os futuros secretários municipais e, claro, os vereadores da legislatura seguinte. Num triste espetáculo, representantes da oposição e da situação tripudiaram sobre as críticas que o projeto de aumento amplo, geral e irrestrito tinham recebido. Alguns, como o petista Paulo Afonso Ribeiro, tentaram intimidar repórteres. Outros, como o tucano Jépy Pereira, debocharam do pequeno número de manifestantes e partiram para o enfrentamento com eleitores como Viviane Araújo, símbolo do esgotamento da paciência da população.
Os vereadores parecem só ter se esquecido de que aquelas pessoas ali presentes, ainda que em pequeno número, eram a personificação de um sentimento geral, de revolta, da população. Faltou gente naquele sessão, mas não faltava insatisfação. A tradução disso veio rápido. E de forma bastante contundente.
Na última quinta-feira, a presença popular foi maciça. A troça de Jépy Pereira ao eleitorado teve reação à altura. Diante de um plenário cheio que gritava sem parar, que virou as costas para os vereadores e que protestou nos limites da democracia, sem violência, não houve alternativa à Câmara a não ser capitular. Foram incríveis 15 votos contra o aumento de cadeiras. De quebra, rejeitaram também a vergonhosa reedição das férias de meio de ano que pretendiam colocar em prática.
As galerias lotadas da Câmara Municipal deram um duro e direto recado aos vereadores eleitos para representá-la. Recado que, ainda que a contragosto, foi ouvido por todos. Agora, caberá aos vereadores digerir o mal-estar e fazer uma inflexão para tentar compreender o que houve. Encontrar a resposta não é difícil, mas exige algum desprendimento.
Dentro de um ano, os eleitores irão às urnas escolher quem desejam que governe a cidade e os represente na Câmara de Vereadores. Se quiserem, os vereadores podem continuar achando que o que aconteceu na última quinta-feira foi orquestrado por algum grupo político ou fomentado pela ‘imprensa golpista’, mantras chatíssimos e que não levam a lugar nenhum. Se tiverem um pouco mais de bom senso, podem tentar um bate-papo com o professor Luiz Cruz. De uma conversa com o mestre, podem sair lições importantes sobre democracia, poder e o exercício de um cargo público. Garanto que mal não vai fazer.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br