Reportagem de Fernanda Martins e Samuel Santos, da Redação
“Tem muito efeito colateral. Acho que não compensa.” A opinião é da microempresária Liliane Beatriz Roncari Lobre, 31, sobre a sibutramina, remédio que ela tomou durante dois meses e que a fez emagrecer 5 kg. Na semana passada, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) restringiu a venda desse medicamento e proibiu outros três usados como inibidores de apetite do tipo anfetamínico. São eles: femproporex, mazindol e anfepramona, que devem ser retirados do mercado em 60 dias.
Segundo relatório da Anvisa, há evidências de eventos adversos graves no uso das anfetaminas. A decisão causou polêmica no país. O Conselho Federal de Medicina (CFM) prometeu ir à Justiça contra a proibição. Em Franca, Marco Aurélio Piacesi, presidente do sindicato dos médicos e diretor regional da APM (Associação Paulista de Medicina), disse ser totalmente favorável à proibição das anfetaminas.
“Não é assim que se perde peso. O uso do anorexígeno faz com que a pessoa deixe de se alimentar e isso é extremamente danoso à saúde. A pessoa que quer emagrecer tem que comer com certa regularidade, de três em três horas, para ativar o metabolismo basal e o que ela vai comer e a quantidade é que fazem a diferença. E a prática de exercícios é indispensável.”
Para Piacesi, a sibutramina também deveria ser banida, assim como foi na Europa, EUA, Argentina, Austrália, Canadá, Paraguai e Uruguai.
O médico endocrinologista Celso Ernesto Mazini afirma que nunca prescreveu as anfetaminas e se diz indignado com a postura do CFM de ir à Justiça. “São um veneno porque atingem a região central do cérebro, bloqueiam a fome e causam uma instabilidade emocional impressionante. Já vi muitas pessoas que tomaram ir parar em hospital psiquiátrico.”
Em relação à sibutramina, Mazini é mais maleável. “Já receitei algumas vezes, mas acho que não dá um efeito significativo, embora ache que é uma droga mais segura.”
O endocrinologista Mauro Roberto de Castro Figueiredo disse que deixou de receitar anfetaminas há três anos e agora só prescreve a sibutramina, considerada por ele menos maléfica. “As anfetaminas são remédios potencialmente perigosos e podem levar a uma hipertensão arterial mais severa, à dependência e até a uma anorexia.”
Um levantamento feito pela reportagem nas principais farmácias de Franca apontou que é alto o consumo das anfetaminas e da sibutramina na cidade. Em média, cada estabelecimento recebe por dia três receitas de anfepramona, mazindol e, principalmente, femproporex. Na Farmácia Oficinal, por exemplo, só no mês de agosto foram vendidas 130 fórmulas de femproporex —80% para mulheres.
Na Coopersumo, foram vendidas 120 fórmulas do medicamento em três meses e mais 10 de sibutramina. Na rede Drogafarma, que tem 19 farmácias na cidade, são vendidas, em média, 100 caixas de anfetaminas por semana. No entanto, a sibutramina ainda é a campeã de vendas, segundo o farmacêutico Fabrício Pedroza. “Chegamos a receber de 150 a 200 receitas por semana.”