10 de julho de 2026

‘Após essa votação, a sensação do francano é de alma lavada’


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CARA-PINTADA - A francana Viviane Araújo milita na política desde 92, quando se juntou ao movimento “Fora Collor”

Viviane Araújo, 34 anos, se tornou uma “pedra no sapato” dos vereadores de Franca. Na última quinta-feira, ela estava entre os cerca de 300 manifestantes com nariz de palhaço, megafone, apitos e faixas que lotaram a Câmara para pressionar os parlamentares na votação que pretendia elevar de 15 para 23 o número de cadeiras na casa. O projeto acabou sendo derrubado por unanimidade. Mas, a militância de Viviane começou bem antes.

Ela tinha oito anos em abril de 1985 quando o presidente eleito Tancredo Neves morreu no Instituto do Coração em São Paulo. A garotinha francana ficou impressionada com a comoção causada no país e perguntou para a mãe por que tanta gente estava chorando. Queria saber por que aquele homem era tão importante. Foi sua primeira referência, o contato inicial com a política. Nunca mais Viviane deixou de se interessar pelo tema.

Em 1992, o movimento estudantil caras-pintadas tomou conta do País. Jovens e estudantes pintaram o rosto de verde e amarelo e organizaram passeatas pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Melo. Viviane tinha 15 anos e estudava na Escola Sudário Ferreira. Com o apoio de professores, ela e alguns colegas fizeram faixas e, claro, se pintaram e foram para o pátio gritar “fora Collor”.

Neste ano, no dia 7 de setembro, Viviane reuniu um grupo de 30 pessoas que se vestiu de preto, acendeu velas e foi para o Centro de Franca protestar contra a corrupção, o voto secreto e a volta da CPMF. A filha de 12 anos estava junto. As velas, ela diz, eram o sinal de esperança para um futuro melhor.

Viviane é formada em marketing e vendas pela Unifran. Fez pós-graduação em Gestão Estratégica de Negócios pela mesma universidade. Atuou como consultora de empresas pelo Sindifranca (Sindicato das Indústrias Calçadistas de Franca) e intermediou compras e vendas de calçados. Há três meses, se desligou do sindicato e passou a atuar só como vendedora.

Nas horas vagas, vai às sessões da Câmara e acompanha de perto o trabalho dos vereadores. Divulga as informações, sempre com muito senso crítico, em seu perfil no Facebook, rede social onde tem cerca de dois mil amigos. E foi justamente pela rede social que ela liderou campanhas para levar manifestantes ao plenário.

Na sessão do dia 29 de setembro, convocou os seguidores para protestarem contra o aumento de salários para vereadores e prefeito. Não mais do que dez pessoas compareceram à sessão. Viviane levou uma faixa sugerindo aos vereadores que fizessem greve, mas seu discurso caiu no vazio: todos os reajustes foram aprovados. O vereador Jépy Pereira (PSDB) foi à tribuna e tripudiou sobre a baixa adesão dos manifestantes. Acabou discutindo com Viviane, que registrou queixa contra o vereador na delegacia.

Na última quinta-feira, além de aumentar o número de vagas na Câmara, os vereadores queriam aprovar férias para eles em julho. Foram surpreendidos pela invasão de manifestantes e recuaram. “A sensação do francano, hoje, é de alma lavada mesmo. Foi, sem dúvida, através da mobilização que a votação aconteceu daquela maneira, por unanimidade”, diz Viviane. Confira nesta entrevista os detalhes da mobilização na Câmara e saiba se Viviane pretende se candidatar no ano que vem, como acreditam os vereadores.

Comércio - Você é casada, mãe de uma garota de 12 anos e tem seus compromissos profissionais. O que lhe move a passar horas na Câmara e comprar brigas que não são suas?
Viviane Araújo -
É, justamente, este problema. Ninguém enxerga questões importantes como se fosse o problema de cada um. Todos enxergam as questões políticas do País, Estado ou cidade, como se alguém tivesse que resolver o problema. Sempre na terceira pessoa. Se cada um adotasse esta postura de fiscalizar, procurar conhecer mais o que está acontecendo nos poderes Executivo e Legislativo, penso que não estaríamos vendo tantas notícias alarmantes a respeito da nossa situação política.

Comércio - Como surgiu a ideia de divulgar a atuação da Câmara nas redes sociais?
Viviane Araújo -
Sempre fui uma pessoa que tive um senso muito crítico a respeito de política. Quem ganhava meu voto podia ter certeza que, se fosse eleita, eu iria pegar no pé mesmo através de e-mail, cartas, enfim, sempre busquei me inteirar de como a pessoa que elegi estava cuidando do meu voto, me representando. A ideia surgiu da indignação que sinto todos os dias. Sempre acompanho jornais, rádios e revistas. É preciso agir para que as coisas possam mudar. Quando comecei a ir à Câmara, percebi que as pessoas não se inteiravam do que acontece ali. Passei a usar a rede social para divulgar as informações.

Comércio - Você disse que sempre cobra dos candidatos em quem vota. Em quem você votou nas últimas eleições?
Viviane Araújo -
O meu candidato a presidente não foi eleito, o governador que votei não foi eleito e o vereador também não foi eleito.

Comércio - Quem são eles?
Viviane Araújo -
Prefiro não revelar os nomes.

Comércio - Como avalia o trabalho da Câmara de Franca?
Viviane Araújo -
O principal problema que tenho visto é que eles têm uma dificuldade muito grande de separar uma crítica pública do que seria uma crítica à sua vida privada. Falta maturidade política para lidar com isto. Seria primordial o vereador entender que ele tem de ser a voz da população na Câmara. Só que ele vota de acordo com o alinhamento político, não com o alinhamento da sociedade. Isto, é muito complicado.

Comércio - Com o acompanhamento crítico que faz, você criou animosidades com a maioria dos vereadores. Como é isso?
Viviane Araújo -
Nunca fui amiga pessoal de nenhum vereador, nunca pedi nada a eles. Meu papel é de cidadã.

Comércio - O que você acha positivo no trabalho da Câmara?
Viviane Araújo -
Existem muitos trabalhos positivos, mas, infelizmente, os negativos estão se sobrepondo.

Comércio - Qual foi o seu grau de frustração com o aumento de salários?
Viviane Araújo -
Foi de 100%. A população deixou muito claro que era contra estes aumentos. Mesmo assim, prevaleceu o interesse deles. Então, eu pergunto: como eles estão representando a sociedade?

Comércio - Na sessão em que os salários foram aumentados, você tentou fazer uma mobilização, mas levou poucas pessoas à Câmara. Na última quinta-feira, dia em que foi derrotada a tentativa de ampliar o número de vagas, mais de 300 pessoas foram ao plenário. Por que desta vez o protesto deu certo?
Viviane Araújo -
As pessoas estão muito cansadas de se sentirem impotentes diante de tanto descaso. Acho que juntou tudo isto e elas viram que havia esta possibilidade de reclamarem e reivindicarem seus direitos.

Comércio - Como foi feita a mobilização?
Viviane Araújo -
Foi meio que contaminando. Fiz uma postagem sobre o aumento dos vereadores e chamei as responsabilidades para a população. Você não coloca um funcionário para trabalhar num lugar e volta lá daqui a quatro anos para colocar outro. É preciso acompanhar de perto. A sociedade não estava fazendo isto. Então, cobrei isso.

Comércio - Vereadores e pessoas próximas a eles disseram que a maior parte dos manifestantes não era de Franca, não eram eleitores. Quem eram os estudantes que foram à Câmara?
Viviane Araújo -
São do campus da Unesp de Franca. Quando viram a mobilização, eles se prontificaram a ajudar a fazer a manifestação. Essa colocação de que as pessoas não eram de Franca, mais uma vez, mostra a imaturidade dos nossos representantes. É só os vereadores saírem às ruas e perguntarem o que as pessoas acham a respeito destes aumentos que eles estavam propondo.

Comércio - Como você avalia o grau de conscientização da população?
Viviane Araújo -
Bem baixo, com um possível aumento a partir de agora. A sensação do francano, hoje, é de alma lavada mesmo. Foi, sem dúvida, através da mobilização que a votação aconteceu daquela maneira, por unanimidade. A carga de adrenalina, de energia e otimismo depois do protesto foi um divisor de água na cidade. Tenho certeza de que, daqui para a frente, será bem diferente.

Comércio - Ao final da votação, quando o aumento de vagas foi rejeitado, você se emocionou e começou a chorar. O que representaram aquelas lágrimas?
Viviane Araújo -
Muita coisa, muita coisa, principalmente, o prazer de lutar e conseguir. A sensação de cumprir o seu dever enquanto cidadão. Ver aqueles jovens, os professores, as pessoas que saíram de casa, amigos que ligamos e chamamos, representa uma vitória muito grande, uma vitória da democracia. É sentir que a nossa voz prevaleceu.

Comércio - Você está envolvida em protestos desde pequena e é casada com um policial. Não teme ficar do lado oposto do marido durante uma manifestação?
Viviane Araújo -
O manifesto na Câmara foi tranquilo. A arma que eu tenho é minha voz. Nunca tive o objetivo de entrar em confronto. Se eu me coloco numa situação em que a polícia tem de intervir dessa forma é porque, provavelmente, eu não estarei correta. Então, prefiro recuar.

Comércio - Você faz forte campanha contra os vereadores nas redes sociais. São frequentes os comentários de que está preparando sua campanha para 2012. Você vai disputar as eleições?
Viviane Araújo -
Não faço oposição ferrenha em relação a eles. Coloco o que foi votado e minha percepção sobre o assunto. Todos precisam ter uma postura. Não fico em cima do muro. Não tenho filiação partidária, não sou candidata mas, com certeza, no próximo mandato, continuarei indo à Câmara para cobrar dos vereadores que eles representem a população da forma devida.

Comércio - O prazo de filiação terminou sexta-feira. Você se filiou?
Viviane Araújo -
Não. Algumas pessoas, para criar um clima nas redes sociais, divulgaram que eu faria parte de algum partido. O prazo acabou e, felizmente, os comentários de que sou candidata vão acabar.

Comércio - Qual mensagem você gostaria de deixar?
Viviane Araújo -
A população de Franca deu provas da força de sua voz, deu provas de que é possível mudar o rumo das coisas. Não precisamos, de forma alguma, ser apenas platéia e ficar assistindo ao que acontece a nossa volta. Podemos e devemos participar ativamente deste processo político. A situação de apatia, de inércia, é muito prejudicial. O povo brasileiro é muito guerreiro e não merece aceitar as coisas de cabeça baixa. Espero que o exemplo da mobilização de quinta-feira possa fazer parte de nossa agenda política. É possível, sim, basta, querer.