As pessoas se encontraram e soltaram a voz em prol de causas comuns. Também, dividiram a força finalmente exercitada. É chavão, mas “povo unido...”
Hélio Ribeiro, o radialista referencial do rádio AM brasileiro na segunda metade do século XX – se não sabe de quem se trata, confira em www.memorialhelioribeiro.com.br – tinha pouca, ou nenhuma vaidade quando se analisava e a seu trabalho: o importante não é quem comunica, e sim, aquilo que ele comunica. A sabedoria conduz à humildade. As pessoas se vão. O que permanece é o que elas dizem. E fazem.
ESCUTAR. NÃO APENAS OUVIR
Seu programa de rádio se chamava “O Poder da Mensagem”, e era o foco de sua obra. Como dizia, ‘é a mensagem adequada que vale’. A mensagem certa, para ouvidos e espíritos certos, na ocasião certa, tem o poder de bomba de muitos quilotons. Explicita, desafia, convence, remete à ação. Para o bem e para o mal.
Hitler, de retórica poderosa focada em temas que o culto povo alemão queria ouvir naquele determinado momento histórico em que ele se colocou a abordá-los, ganhou aval para praticar a pior desgraça discriminatória da história do mundo, praticamente extirpando o povo judeu do mapa da Europa. Jesus Cristo, com retórica igual, garantiu validade milenar para seus ensinamentos de amor e respeito ao próximo. A diferença entre guerra e paz, está, então, na intenção de quem comunica mas, especialmente, em quem recebe a mensagem. Dentre esses, há quem ouça, e há quem escuta. Quem só ouve, não compreende. Se agir, o fará por instinto ou por cópia. Já quem escuta, compreende, processa, aceita ou contrapõe, posiciona-se. E, se age, age porque acredita, porque se convenceu.
NA PRÁTICA
Conversei ontem com o colunista político deste Comércio, o atento e repórter Edson Arantes, sobre as manifestações ocorridas na Câmara quinta-feira, quando foram votadas a ampliação do número de vagas a vereador, de 15 para 23, e (mais) um período de férias - julho - para os edis. Também – e atentem a isso – propostas de emendas à Lei Orgânica do Município, reivindicadas pelo professorado municipal, a exemplo de plano de carreira, concurso público para escolha de diretores e critérios de pontuação para atribuição de aulas. Plenário lotado, ocupado por professores e estudantes gritando palavras de ordem perfeitamente organizadas, resultou em votações unânimes até de vereadores que se articularam por muito tempo favoráveis ao aumento de vagas, às férias, ou contra propósitos da Educação.
Soube, por Edson, que alunos – que se declararam ao vereador Jépy Pereira como a ‘turma do Facebook’ (semana passada, quando pouquíssimos manifestantes tentaram impedir que vereadores majorassem seus salários e os do prefeito, vice e secretários, este vereador acusou uma das líderes do movimento de convocação de cidadãos descontentes à Câmara, Viviane Araújo, de ‘inútil, nula, incapaz de mobilizar’) – presentes para manifestarem-se contra as férias de inverno e o aumento do número de vagas decidiram-se por engrossar a voz dos professores e receberam, desses, o mesmo apoio.
Os propósitos da Câmara Municipal foram exaustivamente discutidas e explicitadas pelo GCN nas últimas semanas. Vários cidadãos leram, ouviram. Incontáveis escutaram e convocaram a outros. Houve receptividade, mas, semana passada, quase ninguém mostrou a cara em plenário. (Ainda restaram análises a serem feitas. O humano, por instinto, se preserva. Prefere não se expor. Acha que outros o farão e, por comodidade, se esconde. Batalhas que podem ser ganhas, são perdidas. Quando isso mudar e o povo entender que ‘engrossar o coro’, mostrar a cara, assinar embaixo sem esconder-se ou à sua identidade, enfim, não deixar dúvidas sobre sua força, alcançará resultados. Poderemos, um dia, ser o País melhor e mais justo que todos sonhamos).
Sei que Jépy Pereira não vai concordar, mas, quando, semana passada, perdeu as estribeiras e ameaçou uma munícipe que buscava fazê-lo, e a seus pares, mais atentos com o que a população deles esperava, acendeu o pavio do rastilho de pólvora que, daqui em diante, vai incomodá-los bastante. Foi algo a recordar que “a voz do povo é a voz de Deus”, ou “o meio é a mensagem”, como diria Marshall MacLuhan; ou ainda, “não importa quem comunica, e sim, aquilo que ele comunica”, segundo Hélio Ribeiro Seja para o bem ou o mal.
BLOCO DE NOTAS
• PREPARAR A VOZ. E A MENSAGEM
Na OAB, hoje, a partir de 8:30 horas, acontece a segunda sessão de curso de Oratória ministrado pelos advogados Acir Matos Gomes e Maria Heloísa Nogueira Rodrigues Alves Martins, também fonoaudióloga. Um dos diferenciais, segundo Acir, é “não deixar a Língua Portuguesa em segundo plano, o que significa ensinar técnicas para que o aluno seja capaz de produzir textos de excelência e, por consequência, produção oral de qualidade”.
• ESTAR ATENTO. E COBRAR
Adoniran Thomaz, pai de aluna na Escola Frei Lauro e co-apresentador do programa “MPB Especial” das tardes de sábado na Rádio Difusora, teve carta sua publicada neste Comércio domingo último, pedindo – novamente – atenção da Prefeitura para revolver problema de ventilação naquela escola. Segundo contou, há 7 meses a administração pública sinalizou que resolveria o problema em poucos dias. Não resolveu. Ele, indignado, mostrou a cara, contou o problema e assinou embaixo. A resposta foi imediata: na segunda-feira pedreiros da Prefeitura estavam na escola trabalhando. Passou por mim e testemunhou: “pedir, lembrar, gritar se for preciso, é o caminho”. A mensagem é tudo!
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br